A História é uma área do conhecimento em constante processo de transformação, afinal "O tempo não para", e conforme se movimenta nos modifica sempre. Esse é o sentido da vida, perceber o movimento e não ficar alheio a ele. Ciência que nos ajuda a ter consciência de nossa condição de sujeitos históricos, nos permite indignar, com o preconceito e a intolerância contra a diversidade. Por meio da História entendemos nossa condição humana, na relação temporal que nos modifica tão maravilhosamente.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
HISTÓRIA E MÚSICA
HISTÓRIA E MÚSICA
Sugestão didática para trabalho com Música e História.
O material a seguir foi trabalhado em sala de turmas de 3ª Série do Ensino Médio na disciplina de História sob minha orientação. O conteúdo exposto faz alusão a um álbum musical intitulado "Cantando a História" do grupo vocal Garganta Profunda, baseado no livro "Brasil Século XX - Ao Pé da Letra da Canção Popular" de Luciana Salles Worms e Wellington Borges Costa.
A meu ver a contextualização histórico-musical que foi criada no álbum é uma mostra do quanto o ensino de história pode mudar as posturas de alunos em diversos níveis de ensino a proposta aqui apresentada é uma mudança de postura cultural que prime pela valorização da canções brasileiras, apresentando ao jovem a riqueza cultural do Brasil que passa bem longe daquilo que a mídia veicula ao grande público. Penso que esse é o papel da escola, trabalhando com essa postura de transformação, acredito que seja possível dar condições para o desenvolvimento do sujeito histórico, não alienado e que tenha opinião.
Ao longo do desenvolvimento da atividade os alunos poderão perceber que as criações musicais são fruto de um processo histórico, portanto que o estudo de História não se restringe a coisas mortas e a um passado sem sentido, essa ciência é vida e seu objeto é o ser humano, homens e mulheres numa trajetória de lutas e mudanças ao longo do tempo.
Fica aqui uma sugestão didática que segundo comprovada experiência faz muito sucesso entre o público estudantil.
HISTÓRIA E MÚSICA
* Boa parte da produção a seguir foi retirado do álbum musical "Cantando a História", entretanto essa produção vem permeada por toques apaixonados de uma educadora-historiadora.
“O tempo não para”, e conforme se movimento nos transforma, esse é o sentido da vida, perceber o movimento e não ficar alheio a ele. A meu ver esse é o sentido da História, ou seja, perceber o movimento do ser humano em sua atuação sobre o Planeta Terra.
Numa sociedade em constante movimento é louvável que se resgate a História de nosso país para as novas gerações. Desta forma a música é uma maneira fantástica de expressar a História do romantismo de “Jura” à contemporaneidade de “Parabolicamará”, nossa História sempre foi marcada pela sensibilidade daqueles que, habilmente, colocaram em letra e melodia o momento em que viviam, mesmo sem saber, pintavam com suas músicas o retrato, ora preto e branco, ora colorido, de uma época que passou, mas muito responsável pelo que somos hoje.
No início do século XX e da República no Brasil, reinava no Carnaval, nos teatros de revista e nos discos, José Barbosa da Silva, o Sinhô. O samba era ainda muito próximo de outro ritmo afrodescendente, o maxixe, ideal para se dançar a dois. As manifestações culturais africanas eram muito reprimidas pela polícia e portar violão era motivo para que o sujeito fosse preso pela polícia.
No final de década de 20, morria Sinhô e nascia a primeira escola de samba do Brasil, a Deixa Falar, fundada por Ismael Silva. A solução rítmica para que o samba orientasse os desfiles nas ruas foi a incorporação de dois instrumentos de percussão: o surdo e o tamborim. A temática preferencial das letras desse novo samba era a figura do malandro carioca.
JURA
Jura
Jura, jura pelo Senhor
Jura
Pela imagem
da Santa Cruz do Redentor
pra ter valo
a tua jura
Jura, jura de coração
Para que um dia
Eu possa dar-te o meu amor
Sem mais pensar na ilusão
Daí então dar-te eu irei
Um beijo puro na catedral
Do amor
Dos sonhos meus
Bem junto aos teus
Para sentirmos as emoções do amor
Sinhô
SE VOCÊ JURAR
Se você jurar que me tem amor
Eu posso me regenerar
Mas se é para fingir, mulher
A orgia assim não vou deixar
Muito tenho sofrido
Por minha lealdade
Agora estou sabido
Não vou atrás de amizade
A minha vida é boa
Não tenho em que pensar
Por uma coisa à toa
Não vou me regenerar
A mulher é um jogo
Difícil de acertar
E o homem como um bobo
Não se cansa de jogar
O que eu posso fazer
É se você jurar
Arriscar a perder
Ou desta vez então ganhar
Ismael Silva/Francisco Alves/Nilton Bastos
Ao mesmo tempo que se processava uma revolução no samba, em 1930, acontecia a Revolução que faria com que Getúlio Vargas pusesse fim à chamada República do Café com Leite em que as oligarquias rurais paulistas e mineiras se revezavam no poder. Vários compositores brancos de classe média aderiram ao samba de Ismael Silva, Noel Rosa, por exemplo, compôs, com Vadico, estes versos sobre melodia, que deixam clara a mudança no panorama político: São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba.
FEITIÇO DA VILA
Quem nasce lá na Vila/ Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo
Lá em Vila Isabel/Quem é bacharel
Não tem medo de samba
São Paulo dá café/Minas dá leite
E a Vila Isabel dá Samba,
A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém/ que nos faz em
Tendo nome de princesa
Transformou o samba num feitiço decente
Que prende a gente
O sol da Vila é triste/ Samba não assiste
Porque a gente implora:
Sol pelo amor de Deus não venha agora
Que as morenas vão logo embora...
Eu sei por onde passo/sei tudo que faço
Paixão não me aniquila
Mas tenho que dizer, modéstia à parte
Meus senhores eu sou da Vila!
Noel Rosa/Vadico
Um dos grandes pilares do regime de Getúlio Vargas foi a radiodifusão. Brilharam várias cantoras do rádio. Dentre elas, Emilinha Borba, que surgiu estimujlada por Carmem Miranda, a “Embaixatriz da Boa Vizinhança”. Nesta marchinha de carnaval gravada em 1949, Braguinha ( João de Barro) brinca com o existencialismo francês, que influenciou a cultura mundial pós-guerra. No Brasil, essa influência gerou as tristes canções de dor-de-cotovelo que imperavam no rádio o ano inteiro. As alegres marchas, com esta, ficavam confinadas aos quatro dias de carnaval.
CHIQUITA BACANA
Chiquita Bacana
lá da Martinica
Se veste com uma casca
de banana nanica
não usa vestido
não usa calção
inverno pra ela
É pleno verão
Existencialista
Com toda razão
Só faz o que manda
O seu coração.
João de Barro/Alberto Ribeiro
O regime de Getúlio Vargas, por meio do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), promovia canções ufanistas de exaltação à pátria. Ary Barroso era um dos maiores expoentes desse tipo de música. A grande intérprete dessas canções era Carmem Miranda. Por problemas de cachê Ary foi substituído por um jovem compositor baiano cujos versos seriam imortalizados pela “Pequena Notável”. Dorival Caymmi, inclusive, além das canções, sugeriu vários ingredientes do indefectível figurino de Carmem Miranda.
O SAMBA DA MINHA TERRA
Samba da minha terra
Deixa a gente mole
Quando se canto todo mundo bole
Quem não gosta de samba
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente do pé
Eu nasci com o samba
No samba me criei
E do danado do samba
Nunca me separei
Dorival Caymmi
A Bossa Nova veio pôr fim ao “baixo astral” da dor de cotovelo do pós-guerra. Não havia mais motivo para a tristeza: o Brasil vivia um período democrático, ganha a Copa do Mundo, a tenista Maria Esther Bueno era bicampeã do torneio tênis de Wimbledon. A batida de violão de João Gilberto, somada à melodia de Tom Jobim e à poesia de Vinícius de Moraes, colocava a música brasileira como produto de exportação. O centro histórico desse período foi o governo Juscelino Kubitschek.
O PATO
O pato vinha cantando alegremente, quen, quen
Quando um marreco sorridente pediu
Para entrar também no samba
O ganso
Gostou da dupla e fez também quen, quen
Olhou pro cisne
E disse assim “vem, vem”
Que o quarteto ficará bom
Muito bom, muito bem
Na beira da lagoa foram ensaiar
Para começar o tico-tico no fubá
A voz do pato era mesmo desacato
Jogo de cena com o ganso era mato
Mas eu gostei do final
Quando caíram na água
Ensaiando o vocal
Neusa Teixeira/Jaime Silva
O período em que o Brasil viveu sob democracia e liberdade e que justificava as letras da Bossa Nova foi muito curto entre duas ditaduras. Com o golpe de 1964, muitos artistas egressos da Bossa Nova entenderam que não havia mais clima para cantar barcos, patos e namoradas. A música tornou-se apenas “pretexto para o protesto”. Para dizer não ao regime militar
DISPARADA
Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do setão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
A morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo pra consertar
Na boiada já fui boi, ma um dia me montei
Não por um motiva meu, ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade
Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu
Boiadeiro muito tempo, laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente, pela vida segurei
Seguia como num sonho, e boiadeiro era um rei
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando
As visões se clareando, até que dia acordei
Então não pude seguir valente em lugar tenente
E o dono de gado é gente, porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente
Se você não concordar não posso me desculpar
Não canto pra enganar, vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar
Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém, que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu querer ir mais longe do que eu
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte num reino que não tem rei
Geraldo Vandré/Théo de Barros
O teatro de operações para a batalha que se travava entre os adeptos da Música de Protesto, da Jovem Guarda e do Tropicalismo foram os festivais da canção. “Ponteio” venceu o festival da TV Record de 1967, superando Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil.
PONTEIO
Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse o amor ou dinheiro
Era um, era dois, era cem
Vieram pra me perguntar
Ô você: - de onde vai, de onde vem?
Diga logo o que tem pra contar
Parado no meio do mundo
Senti chegar meu momento
Olhei pro mundo e nem via
Nem sombra, nem sol, nem vento
Que me dera agora eu tivesse a viola pra cantar
Era um dia, era claro, quase meio
Era um canto calado, sem ponteio
Violência, viola, violeiro
Era a morte ao redor, mundo inteiro
Era um dia, era claro, quase meio
Tinha um que jurou me quebrar
Mas não lembro de dor nem receio
Só sabia da ondas do mar
Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá no fundo buscar
Se eu tomo a viola, ponteio
Meu canto não posso parar, não
Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar
Era um, era dois, era cem
Era um dia, era claro, quase meio
Encerrar meu cantar, j´[a convém
Prometendo um novo ponteio
Certo dia que sei por inteiro
Eu espero não vá demorar
Esse dia estou certo que vem
Digo logo que vem pra buscar
Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar
Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar
Edu Lobo/Capinam
Com a popularização da televisão, os lares brasileiros foram invadidos por uma legião de jovens artistas comandado por Roberto Carlos. Era a Jovem Guarda. Os requebros de Elvis Presley e os cabelos compridos dos Beatles e Rolling Stones ganharam versão brasileira: yeah, yeah, yeah virou iê-iê-iê. Aos adeptos da canção de protesto causavam ojeriza as guitarras elétricas e demais instrumentos plugados na tomada vistos como símbolo da alienação e subserviência ao imperialismo norte americano. Em São Paulo, chegou a acontecer uma passeata contra as guitarras na música brasileira.
BOM
Ah! Meu carro é vermelho
Não uso espelho pra me pentear
Botinha sem meia
E só na areia eu sei trabalhar
Cabelo na testa sou o dono da festa
Pertenço aos dez mais
Se você quiser experimentar
Sei que vai gostar
Quando eu apareço
O comentário é geral
Ele é o bom é o bom demais
Ter muitas garotas pra mim é normal
Ele é o bom entre os dez mais
Carlos Imperial
Entre o não e o iê-iê-iê, surgiu o muito pelo contrário. Inspirados pela Antropofagia Cultural do poeta Oswald de Andrade, os artiistas da Tropicália entendiam que não havia problema algum em se incorporarem guitarras e ritmos estrangeiros à música brasileira desde que se despejasse tudo em um caldeirão de cultura em que essas influências fossem devoradas e misturada à arte brasileira em uma grande geléia geral.
TROPICÁLIA
Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões, meu nariz
Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro um monumento
No planalto Central do país
Viva a bossa sa as
Viva a palhoça ç aça ça...
O monumento é de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata o luar do sertão
O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga,
Estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente,
Feia e morta
Estende a mão
Viva a mata ta ta
Viva a mulata ta ta ta
No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina
E faróis
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E no jardim os urubus passeiam
A tarde inteira
Entre os girassóis...
Viva Maria ia ia
Viva a Bahia ia ia ia...
No pulso esquerdo o bang bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração
Balança a um sambe de tamborim
Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhoer
Ele põe os olhos grandes sobre mim
Viva Ipanema ma ma ma...
Domigo é o fino-da-bossa
segunda-feira está na fossa
terça-feira vai a roça
porém, o monumento
é bem moderno
não disse nada domodelo do meu terno
que tudo mais vá pro inferno meu bem
que tudo mais vá pro inferno meu bem
viva a banda da da
Carmem Miranda da da da da
Caetano Veloso
O regime militar se acirrou muito depois do AI-5, em dezembro de 1968. Muitos brasileiros foram presos, torturados, mortos e exilados. Em exílio voluntário no início dos anos 70, Chico Buarque rompeu com a imagem de bom moço. De volta ao Brasil, especializou-se na arte de dobrar a censura. Em parceria com Francis Hime, em 1976, compôs esta homenagem ao dramaturgo e amigo Augusto Boal, exilado involuntariamente em Portugal.
MEU CARO AMIGO
Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock in roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando, que também, sem cachaça
Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock in roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta
É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai levando só de birra só de sarro
E a gent vai fumando que ,também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock in roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta
Muita careta pra engolir a transação
E a gente ta engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correi andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remete
Notícias frescas nesse disco
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock in roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero lhe dizer que a coisa aqui ta preta
A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus
Chico Buarque/Francis Hime
Com a anistia os presos e exilados políticos e o pluripartidarismo, o Brasil dos anos 80 marca o fim do regime militar e a luta pelas eleições direta. A trilha sonora que vai cantar esse príodo da chamada Nova República é o pop-rock nacional. Compositores que cresceram durante a ditadura militar passam a gozar de uma liberdade de expressão e não economizam preocupações políticas em suas letras. Essa “Geração coca-cola”, o BRrock, ganhou o mercado fonográfico nacional. Roqueiro brasileiro deixou de ter cara de bandido e redimiu a guitarra
BRASIL
Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascr
Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito é uma navalha
Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Não me convidaram pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascr
Não me sortearam
A garota do “fantástico”
Não me subornaram
Será que o meu fim
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer sim, sim
Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
(não vou te trair)
Cazuza/Jorge Israel/Nilo Romero
Na última década do século, o brasileiro foi às ruas exigir o impeachment de Fernando Collor e elegeu duas vezes Fernando Henrique Cardoso. A relação entre FHC e Chico Buarque é muito antiga. O presidente fora aluno do pai do compositor, Chico por sua vez, apoiou as candidaturas de Fernando Henrique ao senado em 1978 e à prefeitura de São Paulo em 1985. já presidente pela segunda vez, em entrevista a uma publicação portuguesa sobre cultura lusófona, Fernando Henrique enalteceu Caetano Veloso, que o apoiara publicamente em 94 e depreciou Chico Buarque, que apoiara Lula em 94 e 98. Embora Chico negue, como sempre, este samba pode ser lido como uma resposta à injúria do presidente.
INJURIADO
Se eu só lhe fizesse o bem
Talvez fosse um vício a mais
Você me teria desprezo por fim
Porém não fui tão imprudente
E agora não há francamente
Motivo pra você me injuriar assim
Dinheiro não lhe emprestei
Favores nunca lhe fiz
Não alimentei o seu gênio ruim
Você nada está me devendo
Por isso meu bem, não entendo
Porque anda agora falando de mim
Dinheiro não lhe emprestei...
Chico Buarque
No final do século XX, ganha extrema importância a informática, com a popularização do PC (computador pessoal) e da rede mundial de computadores, a Internet. A reboque, entram no vocabulário brasileiro uma série de estrangeirismos, notadamente os de língua inglesa, satirizados nesta canção de Zeca Baleiro, representante de uma nova geração de herdeiros da nossa tradição trovadoresca.
SAMBA DO APPROACH
Venha provar meu brunch
Saiba que eu tenho approach
Na hora do lanche
Eu ando de ferry boat
Eu tenho savoir-fair
Meu temperamento é light
Minha casa é high tech
Toda hora rola um insight
Já fui fã do Jethro Tull
Hoje me amarro no Slash
Minha vida agora é cool
Meu passado é que foi trash
Fica ligada no link
Que eu vou confessar my love
Depois do décimo drink
Só um bom e velho Engov
Eu tirei meu Green Card
E fui pra Miami Beach
Posso não ser pop star
Mas já sou um noveau rich
Eu tenho sex-appeal
Saca só meu background
Veloz com Damon Hill
Tenaz com Fittipaldi
Não dispenso um happy end
Posso jogar no dream team
De dia um macho man
E de noite drag queen
Zeca Baleiro
A globalização é um tema que toma conta do debate no final do século XX e começo do XXI. A interligação instantânea e a integração comercial e cultural dos mais longínquos rincões do planeta geram inclusão por um lado e a exclusão de milhões de seres humanos em países pobres, por outro. Em termos nacionais, a grande questão que se coloca ao Brasil é que tipo de inserção nos mercados globais o aguarda: uma inserção soberana e justa ou uma inserção subserviente e colonizada?
PARABOLICAMARÁ
Antes mundo era pequeno
Porque terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena Parabolicamará
Ê, volta do mundo, camará
Ê-ê, mundo dá volta, camará
Antes longe era distante
Perto só quando dava
Quando muito ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos monte, den de casa, camará
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava Rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia que o balaio ia escorregar
Esse tempo nunca passa
Não é de ontem nem de hoje
Mora no som da cabeça
Nem ta preso nem foge
No instante que tange o berimbau, meu camará
De jangada leva uma eternidade,
De saveiro leva uma encarnação
De avuão, o tempo de uma saudade
Esse tempo não tem rédea
Vem nas asas do vento
O momento da tragédia
Chico, Ferreira e Bento
Só souberam na hora do destino apresentar
Sugestão didática para trabalho com Música e História.
O material a seguir foi trabalhado em sala de turmas de 3ª Série do Ensino Médio na disciplina de História sob minha orientação. O conteúdo exposto faz alusão a um álbum musical intitulado "Cantando a História" do grupo vocal Garganta Profunda, baseado no livro "Brasil Século XX - Ao Pé da Letra da Canção Popular" de Luciana Salles Worms e Wellington Borges Costa.
A meu ver a contextualização histórico-musical que foi criada no álbum é uma mostra do quanto o ensino de história pode mudar as posturas de alunos em diversos níveis de ensino a proposta aqui apresentada é uma mudança de postura cultural que prime pela valorização da canções brasileiras, apresentando ao jovem a riqueza cultural do Brasil que passa bem longe daquilo que a mídia veicula ao grande público. Penso que esse é o papel da escola, trabalhando com essa postura de transformação, acredito que seja possível dar condições para o desenvolvimento do sujeito histórico, não alienado e que tenha opinião.
Ao longo do desenvolvimento da atividade os alunos poderão perceber que as criações musicais são fruto de um processo histórico, portanto que o estudo de História não se restringe a coisas mortas e a um passado sem sentido, essa ciência é vida e seu objeto é o ser humano, homens e mulheres numa trajetória de lutas e mudanças ao longo do tempo.
Fica aqui uma sugestão didática que segundo comprovada experiência faz muito sucesso entre o público estudantil.
HISTÓRIA E MÚSICA
* Boa parte da produção a seguir foi retirado do álbum musical "Cantando a História", entretanto essa produção vem permeada por toques apaixonados de uma educadora-historiadora.
“O tempo não para”, e conforme se movimento nos transforma, esse é o sentido da vida, perceber o movimento e não ficar alheio a ele. A meu ver esse é o sentido da História, ou seja, perceber o movimento do ser humano em sua atuação sobre o Planeta Terra.
Numa sociedade em constante movimento é louvável que se resgate a História de nosso país para as novas gerações. Desta forma a música é uma maneira fantástica de expressar a História do romantismo de “Jura” à contemporaneidade de “Parabolicamará”, nossa História sempre foi marcada pela sensibilidade daqueles que, habilmente, colocaram em letra e melodia o momento em que viviam, mesmo sem saber, pintavam com suas músicas o retrato, ora preto e branco, ora colorido, de uma época que passou, mas muito responsável pelo que somos hoje.
No início do século XX e da República no Brasil, reinava no Carnaval, nos teatros de revista e nos discos, José Barbosa da Silva, o Sinhô. O samba era ainda muito próximo de outro ritmo afrodescendente, o maxixe, ideal para se dançar a dois. As manifestações culturais africanas eram muito reprimidas pela polícia e portar violão era motivo para que o sujeito fosse preso pela polícia.
No final de década de 20, morria Sinhô e nascia a primeira escola de samba do Brasil, a Deixa Falar, fundada por Ismael Silva. A solução rítmica para que o samba orientasse os desfiles nas ruas foi a incorporação de dois instrumentos de percussão: o surdo e o tamborim. A temática preferencial das letras desse novo samba era a figura do malandro carioca.
JURA
Jura
Jura, jura pelo Senhor
Jura
Pela imagem
da Santa Cruz do Redentor
pra ter valo
a tua jura
Jura, jura de coração
Para que um dia
Eu possa dar-te o meu amor
Sem mais pensar na ilusão
Daí então dar-te eu irei
Um beijo puro na catedral
Do amor
Dos sonhos meus
Bem junto aos teus
Para sentirmos as emoções do amor
Sinhô
SE VOCÊ JURAR
Se você jurar que me tem amor
Eu posso me regenerar
Mas se é para fingir, mulher
A orgia assim não vou deixar
Muito tenho sofrido
Por minha lealdade
Agora estou sabido
Não vou atrás de amizade
A minha vida é boa
Não tenho em que pensar
Por uma coisa à toa
Não vou me regenerar
A mulher é um jogo
Difícil de acertar
E o homem como um bobo
Não se cansa de jogar
O que eu posso fazer
É se você jurar
Arriscar a perder
Ou desta vez então ganhar
Ismael Silva/Francisco Alves/Nilton Bastos
Ao mesmo tempo que se processava uma revolução no samba, em 1930, acontecia a Revolução que faria com que Getúlio Vargas pusesse fim à chamada República do Café com Leite em que as oligarquias rurais paulistas e mineiras se revezavam no poder. Vários compositores brancos de classe média aderiram ao samba de Ismael Silva, Noel Rosa, por exemplo, compôs, com Vadico, estes versos sobre melodia, que deixam clara a mudança no panorama político: São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba.
FEITIÇO DA VILA
Quem nasce lá na Vila/ Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo
Lá em Vila Isabel/Quem é bacharel
Não tem medo de samba
São Paulo dá café/Minas dá leite
E a Vila Isabel dá Samba,
A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém/ que nos faz em
Tendo nome de princesa
Transformou o samba num feitiço decente
Que prende a gente
O sol da Vila é triste/ Samba não assiste
Porque a gente implora:
Sol pelo amor de Deus não venha agora
Que as morenas vão logo embora...
Eu sei por onde passo/sei tudo que faço
Paixão não me aniquila
Mas tenho que dizer, modéstia à parte
Meus senhores eu sou da Vila!
Noel Rosa/Vadico
Um dos grandes pilares do regime de Getúlio Vargas foi a radiodifusão. Brilharam várias cantoras do rádio. Dentre elas, Emilinha Borba, que surgiu estimujlada por Carmem Miranda, a “Embaixatriz da Boa Vizinhança”. Nesta marchinha de carnaval gravada em 1949, Braguinha ( João de Barro) brinca com o existencialismo francês, que influenciou a cultura mundial pós-guerra. No Brasil, essa influência gerou as tristes canções de dor-de-cotovelo que imperavam no rádio o ano inteiro. As alegres marchas, com esta, ficavam confinadas aos quatro dias de carnaval.
CHIQUITA BACANA
Chiquita Bacana
lá da Martinica
Se veste com uma casca
de banana nanica
não usa vestido
não usa calção
inverno pra ela
É pleno verão
Existencialista
Com toda razão
Só faz o que manda
O seu coração.
João de Barro/Alberto Ribeiro
O regime de Getúlio Vargas, por meio do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), promovia canções ufanistas de exaltação à pátria. Ary Barroso era um dos maiores expoentes desse tipo de música. A grande intérprete dessas canções era Carmem Miranda. Por problemas de cachê Ary foi substituído por um jovem compositor baiano cujos versos seriam imortalizados pela “Pequena Notável”. Dorival Caymmi, inclusive, além das canções, sugeriu vários ingredientes do indefectível figurino de Carmem Miranda.
O SAMBA DA MINHA TERRA
Samba da minha terra
Deixa a gente mole
Quando se canto todo mundo bole
Quem não gosta de samba
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente do pé
Eu nasci com o samba
No samba me criei
E do danado do samba
Nunca me separei
Dorival Caymmi
A Bossa Nova veio pôr fim ao “baixo astral” da dor de cotovelo do pós-guerra. Não havia mais motivo para a tristeza: o Brasil vivia um período democrático, ganha a Copa do Mundo, a tenista Maria Esther Bueno era bicampeã do torneio tênis de Wimbledon. A batida de violão de João Gilberto, somada à melodia de Tom Jobim e à poesia de Vinícius de Moraes, colocava a música brasileira como produto de exportação. O centro histórico desse período foi o governo Juscelino Kubitschek.
O PATO
O pato vinha cantando alegremente, quen, quen
Quando um marreco sorridente pediu
Para entrar também no samba
O ganso
Gostou da dupla e fez também quen, quen
Olhou pro cisne
E disse assim “vem, vem”
Que o quarteto ficará bom
Muito bom, muito bem
Na beira da lagoa foram ensaiar
Para começar o tico-tico no fubá
A voz do pato era mesmo desacato
Jogo de cena com o ganso era mato
Mas eu gostei do final
Quando caíram na água
Ensaiando o vocal
Neusa Teixeira/Jaime Silva
O período em que o Brasil viveu sob democracia e liberdade e que justificava as letras da Bossa Nova foi muito curto entre duas ditaduras. Com o golpe de 1964, muitos artistas egressos da Bossa Nova entenderam que não havia mais clima para cantar barcos, patos e namoradas. A música tornou-se apenas “pretexto para o protesto”. Para dizer não ao regime militar
DISPARADA
Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do setão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
A morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo pra consertar
Na boiada já fui boi, ma um dia me montei
Não por um motiva meu, ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade
Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu
Boiadeiro muito tempo, laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente, pela vida segurei
Seguia como num sonho, e boiadeiro era um rei
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando
As visões se clareando, até que dia acordei
Então não pude seguir valente em lugar tenente
E o dono de gado é gente, porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente
Se você não concordar não posso me desculpar
Não canto pra enganar, vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar
Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém, que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu querer ir mais longe do que eu
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte num reino que não tem rei
Geraldo Vandré/Théo de Barros
O teatro de operações para a batalha que se travava entre os adeptos da Música de Protesto, da Jovem Guarda e do Tropicalismo foram os festivais da canção. “Ponteio” venceu o festival da TV Record de 1967, superando Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil.
PONTEIO
Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse o amor ou dinheiro
Era um, era dois, era cem
Vieram pra me perguntar
Ô você: - de onde vai, de onde vem?
Diga logo o que tem pra contar
Parado no meio do mundo
Senti chegar meu momento
Olhei pro mundo e nem via
Nem sombra, nem sol, nem vento
Que me dera agora eu tivesse a viola pra cantar
Era um dia, era claro, quase meio
Era um canto calado, sem ponteio
Violência, viola, violeiro
Era a morte ao redor, mundo inteiro
Era um dia, era claro, quase meio
Tinha um que jurou me quebrar
Mas não lembro de dor nem receio
Só sabia da ondas do mar
Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá no fundo buscar
Se eu tomo a viola, ponteio
Meu canto não posso parar, não
Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar
Era um, era dois, era cem
Era um dia, era claro, quase meio
Encerrar meu cantar, j´[a convém
Prometendo um novo ponteio
Certo dia que sei por inteiro
Eu espero não vá demorar
Esse dia estou certo que vem
Digo logo que vem pra buscar
Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar
Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar
Edu Lobo/Capinam
Com a popularização da televisão, os lares brasileiros foram invadidos por uma legião de jovens artistas comandado por Roberto Carlos. Era a Jovem Guarda. Os requebros de Elvis Presley e os cabelos compridos dos Beatles e Rolling Stones ganharam versão brasileira: yeah, yeah, yeah virou iê-iê-iê. Aos adeptos da canção de protesto causavam ojeriza as guitarras elétricas e demais instrumentos plugados na tomada vistos como símbolo da alienação e subserviência ao imperialismo norte americano. Em São Paulo, chegou a acontecer uma passeata contra as guitarras na música brasileira.
BOM
Ah! Meu carro é vermelho
Não uso espelho pra me pentear
Botinha sem meia
E só na areia eu sei trabalhar
Cabelo na testa sou o dono da festa
Pertenço aos dez mais
Se você quiser experimentar
Sei que vai gostar
Quando eu apareço
O comentário é geral
Ele é o bom é o bom demais
Ter muitas garotas pra mim é normal
Ele é o bom entre os dez mais
Carlos Imperial
Entre o não e o iê-iê-iê, surgiu o muito pelo contrário. Inspirados pela Antropofagia Cultural do poeta Oswald de Andrade, os artiistas da Tropicália entendiam que não havia problema algum em se incorporarem guitarras e ritmos estrangeiros à música brasileira desde que se despejasse tudo em um caldeirão de cultura em que essas influências fossem devoradas e misturada à arte brasileira em uma grande geléia geral.
TROPICÁLIA
Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões, meu nariz
Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro um monumento
No planalto Central do país
Viva a bossa sa as
Viva a palhoça ç aça ça...
O monumento é de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata o luar do sertão
O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga,
Estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente,
Feia e morta
Estende a mão
Viva a mata ta ta
Viva a mulata ta ta ta
No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina
E faróis
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E no jardim os urubus passeiam
A tarde inteira
Entre os girassóis...
Viva Maria ia ia
Viva a Bahia ia ia ia...
No pulso esquerdo o bang bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração
Balança a um sambe de tamborim
Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhoer
Ele põe os olhos grandes sobre mim
Viva Ipanema ma ma ma...
Domigo é o fino-da-bossa
segunda-feira está na fossa
terça-feira vai a roça
porém, o monumento
é bem moderno
não disse nada domodelo do meu terno
que tudo mais vá pro inferno meu bem
que tudo mais vá pro inferno meu bem
viva a banda da da
Carmem Miranda da da da da
Caetano Veloso
O regime militar se acirrou muito depois do AI-5, em dezembro de 1968. Muitos brasileiros foram presos, torturados, mortos e exilados. Em exílio voluntário no início dos anos 70, Chico Buarque rompeu com a imagem de bom moço. De volta ao Brasil, especializou-se na arte de dobrar a censura. Em parceria com Francis Hime, em 1976, compôs esta homenagem ao dramaturgo e amigo Augusto Boal, exilado involuntariamente em Portugal.
MEU CARO AMIGO
Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock in roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando, que também, sem cachaça
Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock in roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta
É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai levando só de birra só de sarro
E a gent vai fumando que ,também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock in roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta
Muita careta pra engolir a transação
E a gente ta engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correi andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remete
Notícias frescas nesse disco
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock in roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero lhe dizer que a coisa aqui ta preta
A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus
Chico Buarque/Francis Hime
Com a anistia os presos e exilados políticos e o pluripartidarismo, o Brasil dos anos 80 marca o fim do regime militar e a luta pelas eleições direta. A trilha sonora que vai cantar esse príodo da chamada Nova República é o pop-rock nacional. Compositores que cresceram durante a ditadura militar passam a gozar de uma liberdade de expressão e não economizam preocupações políticas em suas letras. Essa “Geração coca-cola”, o BRrock, ganhou o mercado fonográfico nacional. Roqueiro brasileiro deixou de ter cara de bandido e redimiu a guitarra
BRASIL
Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascr
Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito é uma navalha
Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Não me convidaram pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascr
Não me sortearam
A garota do “fantástico”
Não me subornaram
Será que o meu fim
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer sim, sim
Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
(não vou te trair)
Cazuza/Jorge Israel/Nilo Romero
Na última década do século, o brasileiro foi às ruas exigir o impeachment de Fernando Collor e elegeu duas vezes Fernando Henrique Cardoso. A relação entre FHC e Chico Buarque é muito antiga. O presidente fora aluno do pai do compositor, Chico por sua vez, apoiou as candidaturas de Fernando Henrique ao senado em 1978 e à prefeitura de São Paulo em 1985. já presidente pela segunda vez, em entrevista a uma publicação portuguesa sobre cultura lusófona, Fernando Henrique enalteceu Caetano Veloso, que o apoiara publicamente em 94 e depreciou Chico Buarque, que apoiara Lula em 94 e 98. Embora Chico negue, como sempre, este samba pode ser lido como uma resposta à injúria do presidente.
INJURIADO
Se eu só lhe fizesse o bem
Talvez fosse um vício a mais
Você me teria desprezo por fim
Porém não fui tão imprudente
E agora não há francamente
Motivo pra você me injuriar assim
Dinheiro não lhe emprestei
Favores nunca lhe fiz
Não alimentei o seu gênio ruim
Você nada está me devendo
Por isso meu bem, não entendo
Porque anda agora falando de mim
Dinheiro não lhe emprestei...
Chico Buarque
No final do século XX, ganha extrema importância a informática, com a popularização do PC (computador pessoal) e da rede mundial de computadores, a Internet. A reboque, entram no vocabulário brasileiro uma série de estrangeirismos, notadamente os de língua inglesa, satirizados nesta canção de Zeca Baleiro, representante de uma nova geração de herdeiros da nossa tradição trovadoresca.
SAMBA DO APPROACH
Venha provar meu brunch
Saiba que eu tenho approach
Na hora do lanche
Eu ando de ferry boat
Eu tenho savoir-fair
Meu temperamento é light
Minha casa é high tech
Toda hora rola um insight
Já fui fã do Jethro Tull
Hoje me amarro no Slash
Minha vida agora é cool
Meu passado é que foi trash
Fica ligada no link
Que eu vou confessar my love
Depois do décimo drink
Só um bom e velho Engov
Eu tirei meu Green Card
E fui pra Miami Beach
Posso não ser pop star
Mas já sou um noveau rich
Eu tenho sex-appeal
Saca só meu background
Veloz com Damon Hill
Tenaz com Fittipaldi
Não dispenso um happy end
Posso jogar no dream team
De dia um macho man
E de noite drag queen
Zeca Baleiro
A globalização é um tema que toma conta do debate no final do século XX e começo do XXI. A interligação instantânea e a integração comercial e cultural dos mais longínquos rincões do planeta geram inclusão por um lado e a exclusão de milhões de seres humanos em países pobres, por outro. Em termos nacionais, a grande questão que se coloca ao Brasil é que tipo de inserção nos mercados globais o aguarda: uma inserção soberana e justa ou uma inserção subserviente e colonizada?
PARABOLICAMARÁ
Antes mundo era pequeno
Porque terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena Parabolicamará
Ê, volta do mundo, camará
Ê-ê, mundo dá volta, camará
Antes longe era distante
Perto só quando dava
Quando muito ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos monte, den de casa, camará
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava Rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia que o balaio ia escorregar
Esse tempo nunca passa
Não é de ontem nem de hoje
Mora no som da cabeça
Nem ta preso nem foge
No instante que tange o berimbau, meu camará
De jangada leva uma eternidade,
De saveiro leva uma encarnação
De avuão, o tempo de uma saudade
Esse tempo não tem rédea
Vem nas asas do vento
O momento da tragédia
Chico, Ferreira e Bento
Só souberam na hora do destino apresentar
Big Brother Brasil
Recebi este texto por e-mail de uma pessoa muito querida, estudante de doutorado do curso de pós-graduação em Agricultura Tropical da UFMT e achei interessante compartilhar.
Solicitei aos meus alunos do 3º Ano (Turno Matutino) que postassem comentários a respeito, se possível fazendo comparções com o texto posterior publicado neste blog e intitulado "Troque 1 parlamentar por 344 professores.
A meu ver os dois textos mostram uma situação de decadência da educação e da cultura no Brasil, entretanto um projeto de educação sustentado em novos modelos talvez seja um dos caminhos, aposto nisso.
BIG BROTHER BRASIL
(Luiz Fernando Veríssimo)
Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço...A décima primeira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil,... encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que em Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos, na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE...
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo.
Eu gostaria de perguntar, se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?
São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros: profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados..
Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a isso, todo santo dia.
Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada, meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.
E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social: moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?
(Poderiam ser feitas mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores!)
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ler a Bíblia, orar, meditar, passear com os filhos, ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.
Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.
Um abismo chama outro abismo.
Solicitei aos meus alunos do 3º Ano (Turno Matutino) que postassem comentários a respeito, se possível fazendo comparções com o texto posterior publicado neste blog e intitulado "Troque 1 parlamentar por 344 professores.
A meu ver os dois textos mostram uma situação de decadência da educação e da cultura no Brasil, entretanto um projeto de educação sustentado em novos modelos talvez seja um dos caminhos, aposto nisso.
BIG BROTHER BRASIL
(Luiz Fernando Veríssimo)
Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço...A décima primeira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil,... encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que em Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos, na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE...
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo.
Eu gostaria de perguntar, se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?
São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros: profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados..
Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a isso, todo santo dia.
Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada, meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.
E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social: moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?
(Poderiam ser feitas mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores!)
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ler a Bíblia, orar, meditar, passear com os filhos, ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.
Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.
Um abismo chama outro abismo.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Troque 1 parlamentar por 344 professores
"No futebol, o Brasil ficou entre os 8 melhores do mundo e todos estão tristes.
Na educação é o 85º e ninguém reclama..."
COMO PROFESSORA QUE SOU,
DIANTE DOS FATOS,
APOIO ESTA TROCA
TROQUE 01 PARLAMENTAR POR 344 PROFESSORES
O salário de 344 professores que ensinam = ao de 1 parlamentar que rouba
Essa é uma campanha que vale a pena!
Repasso com solidária revolta!
"Prezado amigo!
Sou professor de Física, de ensino médio de uma escola pública em uma cidade do interior da Bahia e gostaria de expor a você o meu salário bruto mensal: R$650,00
Eu fico com vergonha até de dizer, mas meu salário é R$650,00. Isso mesmo! E olha que eu ganho mais que outros colegas de profissão que não possuem um curso superior como eu e recebem minguados R$440,00. Será que alguém acha que, com um salário assim, a rede de ensino poderá contar com professores competentes e dispostos a ensinar? Não querendo generalizar, pois ainda existem bons professores lecionando, atualmente a regra é essa: O professor faz de conta que dá aula, o aluno faz de conta que aprende, o Governo faz de conta que paga e a escola aprova o aluno mal preparado. Incrível, mas é a pura verdade! Sinceramente, eu leciono porque sou um idealista e atualmente vejo a profissão como um trabalho social. Mas nessa semana, o soco que tomei na boca do estomago do meu idealismo foi duro!
Descobri que um parlamentar brasileiro custa para o país R$10,2 milhões por ano... São os parlamentares mais caros do mundo. O minuto trabalhado aqui custa ao contribuinte R$11.545.
Na Itália, são gastos com parlamentares R$3,9 milhões, na França, pouco mais de R$2,8 milhões, na Espanha, cada parlamentar custa por ano R$850 mil e na vizinha Argentina R$1,3 milhões.
Trocando em miúdos, um parlamentar custa ao país, por baixo, 688 professores com curso superior !
Diante dos fatos, gostaria muito, amigo, que você divulgasse minha campanha, na qual o lema será:
'TROQUE UM PARLAMENTAR POR 344 PROFESSORES'.
Repassar esta mensagem é sinal de patriotismo, pois a vergonha que atualmente impera em nossa política está desmotivando o nosso povo e arruinando o nosso querido Brasil.
É o mínimo que nós, patriotas, podemos fazer.
Na educação é o 85º e ninguém reclama..."
COMO PROFESSORA QUE SOU,
DIANTE DOS FATOS,
APOIO ESTA TROCA
TROQUE 01 PARLAMENTAR POR 344 PROFESSORES
O salário de 344 professores que ensinam = ao de 1 parlamentar que rouba
Essa é uma campanha que vale a pena!
Repasso com solidária revolta!
"Prezado amigo!
Sou professor de Física, de ensino médio de uma escola pública em uma cidade do interior da Bahia e gostaria de expor a você o meu salário bruto mensal: R$650,00
Eu fico com vergonha até de dizer, mas meu salário é R$650,00. Isso mesmo! E olha que eu ganho mais que outros colegas de profissão que não possuem um curso superior como eu e recebem minguados R$440,00. Será que alguém acha que, com um salário assim, a rede de ensino poderá contar com professores competentes e dispostos a ensinar? Não querendo generalizar, pois ainda existem bons professores lecionando, atualmente a regra é essa: O professor faz de conta que dá aula, o aluno faz de conta que aprende, o Governo faz de conta que paga e a escola aprova o aluno mal preparado. Incrível, mas é a pura verdade! Sinceramente, eu leciono porque sou um idealista e atualmente vejo a profissão como um trabalho social. Mas nessa semana, o soco que tomei na boca do estomago do meu idealismo foi duro!
Descobri que um parlamentar brasileiro custa para o país R$10,2 milhões por ano... São os parlamentares mais caros do mundo. O minuto trabalhado aqui custa ao contribuinte R$11.545.
Na Itália, são gastos com parlamentares R$3,9 milhões, na França, pouco mais de R$2,8 milhões, na Espanha, cada parlamentar custa por ano R$850 mil e na vizinha Argentina R$1,3 milhões.
Trocando em miúdos, um parlamentar custa ao país, por baixo, 688 professores com curso superior !
Diante dos fatos, gostaria muito, amigo, que você divulgasse minha campanha, na qual o lema será:
'TROQUE UM PARLAMENTAR POR 344 PROFESSORES'.
Repassar esta mensagem é sinal de patriotismo, pois a vergonha que atualmente impera em nossa política está desmotivando o nosso povo e arruinando o nosso querido Brasil.
É o mínimo que nós, patriotas, podemos fazer.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Caminhos e Descaminhos que levam à Sonora: experiências, recordações e memórias de migrantes.
Beatriz dos Santos de Oliveira Feitosa*
A compreensão dos conceitos historiográficos são fundamentais para o trabalho de representação do espaço de Sonora a partir da historiografia. Said (2001) em seu “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente”, aponta que “a análise do texto orientalista, enfatiza a evidência, que de modo algum é invisível, de tais representações como representações, e não como descrições naturais do Oriente” (1990:32).
É necessário ter em vista que o trabalho do historiador não é o de fabricar, produzir um objeto, é muito mais o trabalho da representação por meio da prática de observação, mediada pelo amadurecimento teórico, aliado às práticas dos atores sociais que ocupam aquele espaço, suas vivências, experiências e memórias, juntamente com certas condições materiais que permitiram se organizarem de determinadas formas, trajetórias revividas pelas memórias que trazem à tona e que são ferramentas fundamentais para o trabalho do historiador.
“Em qualquer exemplo, pelo menos da linguagem escrita, não existe nada do gênero de uma presença recebida, mas sim uma re-presença, ou uma representação.” (Said, 1990:33). Neste sentido, as produções no campo da historiografia, são representações de quem escreve, a partir do universo daquele que escreve. Essas são questões que se mantiveram muito presentes na tarefa de reconstruir esse passado de Sonora. A opção teórica por determinados conceitos, sempre tendo em vista um universo de possibilidades que normalmente são negligenciados, muito pela problemática do tempo para a realização da pesquisa, mas muito também pela incompatibilidade de determinados conceitos dentro de um projeto de pesquisa que se intentou trabalhar.
Optou-se por alguns conceitos tais como: fronteira, território, desterritorialização, migrações temporárias e identidade para, a partir deles, empreender um trabalho de reflexão histórica que primasse pela compreensão do processo de constituição de Sonora.
Prima-se pela necessidade de adentrar a história como experiência, perceber as práticas de poder que instituem a representação da cidade, buscar por meio da pesquisa dar conta do movimento que produz a cidade. Sonora, fruto da experiência, resultados de deslocamentos, uma cidade que não cabe em cadeias interpretativas é o resultado da experiência de gente, incluída ou não no processo produtivo, o espaço ao mesmo tempo do lugar daquele que fica e do não-lugar daquele que parte a cada ciclo encerrado no corte da cana.
De acordo com Borges (2006) “o não lugar acaba, por sua vez, transformando-se num lugar especial, diferente e com outras características identitárias, desta vez construída por todas as pessoas que fazem a cidade, e não por apenas um segmento, como normalmente acontece nos lugares muito tradicionais”. Há quem afirme ser uma cidade nova, fruto de práticas muito recentes de ocupação capitalista do território, entretanto, para além do fator econômico que motiva a ocupação, esta é o resultado da dinâmica do movimento de pessoas.
Este trabalho é uma oportunidade de compreender a cidade como movimento, visto que “ os lugares amados são os lugares ‘intatos’, e ninguém concorda com esta afirmação com mais veemência do que aqueles que vivem nos lugares ‘estragados’” (Willians, 1989: 341) intentando compreender que a experiência é algo que se produz nessa cidade, com diria Willians já estragada pelo movimento, não como construção de uma realidade, natural, irreversível, mas como prática de representação dessa realidade. E, “considerando não haver prática ou estrutura que não seja produzida pelas representações, contraditórias e em confronto, pelas quais os indivíduos e os grupos dão sentido ao mundo que é o deles” (Chartier, 1991), é que se torna possível compreender a dinâmica da ocupação de Sonora, a “Princesinha do Norte”.
No tocante à compreensão sobre fronteiras utilizamos os estudos de Waibel, para quem a questão é se ainda “temos tais zonas pioneiras no Brasil e, em caso afirmativo, onde estão localizadas [...] o que exige uma melhor definição dos conceitos de frontier e pionner” (1979: 281).
De grande relevância ainda para o presente estudo foi a obra de Martins (1997), para quem o termo fronteira, no Brasil, é tratado de forma particular por geógrafos e antropólogos. Para os primeiros, como um termo que designa uma zona pioneira ou uma frente pioneira. Os segundos, sobretudo a partir dos anos cinqüenta, definiram essas frentes de deslocamento da população civilizada e das atividades econômicas de algum modo reguladas pelo mercado, como frentes de expansão.
A designação de frentes de expansão formulada por Darcy Ribeiro, como “fronteiras de civilização”, tornou-se uso corrente até mesmo entre antropólogos, sociólogos e historiadores que não estavam trabalhando propriamente com situações de fronteira da civilização. Ela expressa a concepção de ocupação do espaço de quem tem como referência as populações indígenas, enquanto a concepção de frente pioneira não leva em conta os índios e tem como referência o empresário, o fazendeiro, o comerciante e o pequeno agricultor moderno e empreendedor (Martins, 1997).
Tais definições parecem apontar que a concepção dos antropólogos sobre a expansão é mais ampla, pois incorpora os índios, desconsiderados por um grupo de estudiosos.
Pierre Monbeig define os índios alcançados (e massacrados) pela frente pioneira no oeste de São Paulo como precursores dessa mesma frente, como se estivessem ali transitoriamente à espera da civilização que acabaria com eles. A ênfase original de suas análises estava no reconhecimento das mudanças radicais na paisagem pela construção de ferrovias, das cidades, pela difusão da agricultura comercial em grande escala, como o café e o algodão.
A partir da reflexão dos conceitos de fronteira, zonas pioneiras e zonas de expansão dos autores supramencionados, Martins (1997) se sente à vontade para fazer uma primeira datação histórica: adiante da fronteira demográfica ou da “civilização”, estão as populações indígenas que sofrem as conseqüências dos processos de expansão. Entre a fronteira demográfica e a fronteira econômica está a frente de expansão, isto é, a frente da população não incluída na fronteira econômica. Atrás da linha da fronteira econômica está a frente pioneira, dominada não só pelos agentes da civilização, mas, também, pelos agentes da modernização que se constituem em agentes da economia capitalista que vai além da economia de mercado. São agentes de mentalidade inovadora, urbana e empreendedora (Martins, 1997).
Ao que tudo indica essa mentalidade esteve presente entre os agentes de colonização da região estudada, assunto que exigirá uma atividade intelectual de maior profundidade e que por ora são caminhos pelos quais ainda dou os primeiros passos.
A mão-de-obra que fixou residência no núcleo urbano de Sonora, popularmente conhecida como “Princesinha do Norte” , desempenhava funções totalmente voltadas às atividades agrícolas, e foi justamente o trabalho na lavoura que contribuiu para atrair mais migrantes o que resultou em relativa expansão populacional. Segundo informações obtidas em pesquisa de campo foi possível constatar as dificuldades iniciais que se colocavam ao trabalhador que se fixou nessa região a partir dos anos de 1970.
“No princípio foi muito ruim porque daqui onde nóis trabalhava dava, mais de 40 Km(...), aí moço nóis ia cedo de madrugada, quando dava 04 horas eu levantava, pegava um trator subia a turma dentro numa carreta da roda dura, nóis ai pra lá, quando era de tarde a gente carregava a carreta de madeira e vinha. (...) mais era uma vida sufrida, que eu nunca vi daquele jeito, cedo de madrugada pra lá e de noite pra cá, um frio. (...) Um dia eu disse, essa vida nossa num ta dano não chegá em casa todo arrebentado por dentro.”
Le Goff (1994:143) no tocante ao trabalho com as fontes orais e com depoimento como os supramencionados, afirma que “nenhum documento é inocente. Deve ser analisado. Todo documento é um monumento que deve ser desestruturado, desmontado. O historiador não deve ser apenas capaz de discernir o que é “falso” , avaliar a credibilidade do documento, mas também desmistificá-los. “Os documentos só passam a ser fontes históricas depois de estar sujeitos a tratamentos destinados a transformar sua função de mentira em confissão de verdade”. É desta forma que me disponho a trabalhar com as fontes orais em minha caminhada de pesquisa histórica.
Segundo dados coletados na pesquisa de campo, constatou-se a ação de empreiteiros encarregados de trazer trabalhadores de outras regiões para o trabalho no corte de cana durante o período de safra. No decorrer da entrevista com o presidente do sindicato dos trabalhadores rurais do município o trabalho era contratado por “gatos”. Quando solicitado para que falasse mais a respeito do trabalho das empreiteiras foi obtido a seguinte resposta:
“... empreiteira, a gente fala assim empreiteira, pra não maltratar muito sabe, porque na verdade é gato mesmo, o famoso gato. Então o gato é o seguinte: o que acontece? Quando o trabalhador ganha 10 reais, por exemplo, o gato ganha 20 em cima do trabalho do trabalhador...”
Thompson (1992) considera que “a História Oral pode certamente ser um meio de transformar tanto o conteúdo quanto a finalidade da História. Pode ser utilizada para alterar o enfoque da própria História e revelar novos campos de investigação (...) pode devolver às pessoas que fizeram e vivenciaram a História um lugar fundamental, mediante suas próprias palavras”. A entrevista com o presidente do sindicato dos trabalhadores rurais é elucidativo da existência desse lugar na história que as pessoas atribuem a si próprias. Halbwachs (1990) discute na obra “Memória Coletiva”, a questão de buscarmos fundamentar questões que já conhecemos por meio do depoimento de outras pessoas, afirma que:
“fazemos apelo aos testemunhos para fortalecer ou debilitar, mas também para completar o que sabemos de um evento do qual já estamos informados de alguma forma, embora muitas circunstâncias nos pareçam obscuras. (...) Ora, a primeira testemunha, à qual podemos sempre apelar, é a nós próprios. (...) Se o que vemos hoje tivesse que tomar lugar dentro do quadro de nossas lembranças antigas, inversamente essas lembranças se adaptariam ao conjunto de nossas percepções atuais. Tudo se passa como se confrontássemos vários depoimentos”.
Para Bauman (2005) “a metodologia utilizada para abordar um assunto busca acima de tudo “revelar” a miríade de conexões entre o objeto da investigação e outras manifestações da vida na sociedade humana”. São essa conexões que tenho buscado fazer em relação ao estudo da região do Vale do Correntes, onde está localizado o município de Sonora no extremo norte do estado de Mato Grosso do Sul. No intuito de compreender os “ Caminhos e os Descaminhos que Conduzem à Sonora” bem como as políticas de incentivo ao processo de ocupação do extremo norte do estado de Mato Grosso do Sul a partir de 1970”, busco entender as questões concernentes ao incentivo governamental na forma de créditos subsidiados que possibilitaram a colonização privada na região do Vale do Correntes, onde atualmente está localizado o município de Sonora ao norte do estado de Mato Grosso do Sul, procuro entender ainda a dinâmica da fronteira que levou à formação daquele espaço, bem como a questão de territorialização, desterritorialização e concepções de identidade com base em autores que trabalham com questões concernentes a Territórios e Fronteiras.
A formação daquele território e das identidades ou do embate entre essas identidades que se encontram ali presentes parecem fazer parte de um quadro geral da sociedade brasileira dos anos de 1970 é o que aponta o jornal “Defesa” no ano de 1975.
“O norte do Mato Grosso começa a repetir a tristemente conhecida história da colonização do norte do Paraná , onde a luta pela terra, com o sacrifício físico e sanguinolento dos contendores era lugar comum.
Aqui também, já é comum a luta fratricida por plano de terra. Veja-se a estatística criminal e constate-se que 60% dos crimes ocorridos no norte do estado são oriundo de questões de terras.”
O artigo do jornal Defesa, de 1975 aponta para a questão da formação do território brasileiro e a violência que a constituição desse território teria gerado, isso pode indicar que os embates teriam levado ao fato de que uma parte da população teria tido acesso a esse território enquanto outra parcela desta população teria sido desterritorializada, não nos cabe nos limites do presente texto discutir as questões de formação de propriedades, em que bases e mediante quais métodos, o que interessa nos limites desta produção diz respeito a uma questão de operacionalização de conceitos e ao tratar da questão da desterritorialização, não poderia deixar de citar HAESBAERT (2006), para quem “o mito da desterritorialização é o mito dos que imaginam que o homem pode viver sem território, que a sociedade pode existir sem territorialidade, como se o movimento de destruição de territórios não fosse sempre, de algum modo, sua reconstrução em novas bases (HAESBAERT:2005)”.
O termo desterritorialização é novo, entretanto os argumentos utilizados em torno dessa questão não são inéditos como aponta HAESBAERT (2005), ao afirmar que “muitas posições de Marx em “O Capital” e no “Manifesto Comunista”revelavam claramente uma preocupação com a “desterritorialização”capitalista, seja a do camponês expropriado, transformado em “trabalhador livre”, e seu êxodo para as cidades, seja a do burguês mergulhado numa vida em constante movimento e transformação, onde “tudo que é sólido desmancha no ar”na famosa expressão popularizada por BERMAN (1986)”.
Parece-me que a obra de BAUMAN (2005) caminha de um pólo à outro das concepções apontadas por Haesbaert, visto que para ele ao mesmo tempo que considera “a questão da identidade como estando ligada ao colapso do Estado de bem-estar social e ao posterior crescimento da sensação de insegurança, com a “corrosão do caráter” que a insegurança e a flexibilidade no local de trabalho têm provocado na sociedade”. Considera também a identidade “como algo revelado a ser inventado, e não descoberto”. Em suma, o discurso que procura estabelecer uma identidade é claramente ideológico, defende interesses que não são necessariamente legítimos.
Enquanto para Haesbaert a desterritorialização é um mito e o que existe na verdade são territórios múltiplos, Bauman fala da existência de desterritorializados “num mundo de soberania territorialmente assentada. Ao mesmo tempo que compartilham a situação de subclasse, eles, acima de todas as privações, têm negado o direito à presença física dentro de um território sob lei soberana, exceto em “não-lugares” especialmente planejados, denominados campos para refugiados ou pessoas em busca de asilo a fim de distingui-los do espaço em que os outros, as pessoas “normais”, “perfeitas”, vivem e se movimenta”.
Ao finalizar este texto compartilho com o leitor, algumas reflexões e analogias que considero possíveis em relação à questão do “não-lugar”, penso que os barracões e alojamentos criados especificamente para os trabalhadores do corte de cana-de-açúcar, em regiões como a do Vale do Correntes, por exemplo, podem ser entendidos como “não-lugares”, pois é o espaço, onde o trabalhador, desterritorializado de seu lugar de origem e sofrendo os efeitos de uma fragmentação da sua identidade e, em alguns casos até mesmo a perda desta, momentos em que chegam à condição de verdadeiros lixos humanos, habitando a tênue fronteira que os separa da condição de seres humanos, os barracões são espaços de uma vida em suspense, à espera sempre do momento de retorno para os locais de origem onde, em geral o que aguarda a maioria desses trabalhadores é uma situação de marginalização social e pobreza. Destaca-se o fato de que a geração que nasceu nos anos de 1970, está sofrendo os efeitos da formação do mundo contemporâneo, especialmente dos anos de 1990, momento em que as pessoas deixam de ser desempregadas e se tornam “redundantes”, ou seja, passam a não ter mais espaço e conforme as palavras de BAUMAN (2005), passam a ser refugo, lixo. A trajetória dos referidos trabalhadores é marcante, visto que o limite entre exclusão e inclusão é muito tênue.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BAUMAN, Zygmunt. “Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi”. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005
BAUMAN, Zygmunt. “Vidas desperdiçadas”. Tradução de Carlos Aberto Medeiros. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005.
BERMAN, Marshall. “Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade”. Trad. de Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioriatti. São Paulo: Cia. das Letras, 1986.
FIGUEIRA, Ricardo Rezende. “Pisando Fora da Própria Sombra: a escravidão por dívida no Brasil contemporâneo.” Rio de Janeiro: civilização brasileira, 2004.
HAERBAERT, Rogério. “O Mito da Desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. 2. Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
HALBWACHS, Maurice. “ Memória Coletiva” .São Paulo: Vértice, 1990.
LE GOFF. Jacques. “ História e Memória”. São Paulo: editora da UNICAMP, 1994.
MARTINS, José de Souza. “Fronteira: a degradação do outro nos confins do humano”.São Paulo: Hucitec, 1997.
MONBEIG, Pierre. Os pioneiros. In: Pioneiros e fazendeiros de São Paulo. São Paulo: Hucitec-Polis, 1984.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
THOMPSON, Edward P. “ A Voz do Passado: História Oral”.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
WAIBEL, Léo. As zonas pioneiras do Brasil. In: “Capítulos de geografia tropical e do Brasil”. 2ª Ed., Rio de janeiro: FIBGE, 1979.
A compreensão dos conceitos historiográficos são fundamentais para o trabalho de representação do espaço de Sonora a partir da historiografia. Said (2001) em seu “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente”, aponta que “a análise do texto orientalista, enfatiza a evidência, que de modo algum é invisível, de tais representações como representações, e não como descrições naturais do Oriente” (1990:32).
É necessário ter em vista que o trabalho do historiador não é o de fabricar, produzir um objeto, é muito mais o trabalho da representação por meio da prática de observação, mediada pelo amadurecimento teórico, aliado às práticas dos atores sociais que ocupam aquele espaço, suas vivências, experiências e memórias, juntamente com certas condições materiais que permitiram se organizarem de determinadas formas, trajetórias revividas pelas memórias que trazem à tona e que são ferramentas fundamentais para o trabalho do historiador.
“Em qualquer exemplo, pelo menos da linguagem escrita, não existe nada do gênero de uma presença recebida, mas sim uma re-presença, ou uma representação.” (Said, 1990:33). Neste sentido, as produções no campo da historiografia, são representações de quem escreve, a partir do universo daquele que escreve. Essas são questões que se mantiveram muito presentes na tarefa de reconstruir esse passado de Sonora. A opção teórica por determinados conceitos, sempre tendo em vista um universo de possibilidades que normalmente são negligenciados, muito pela problemática do tempo para a realização da pesquisa, mas muito também pela incompatibilidade de determinados conceitos dentro de um projeto de pesquisa que se intentou trabalhar.
Optou-se por alguns conceitos tais como: fronteira, território, desterritorialização, migrações temporárias e identidade para, a partir deles, empreender um trabalho de reflexão histórica que primasse pela compreensão do processo de constituição de Sonora.
Prima-se pela necessidade de adentrar a história como experiência, perceber as práticas de poder que instituem a representação da cidade, buscar por meio da pesquisa dar conta do movimento que produz a cidade. Sonora, fruto da experiência, resultados de deslocamentos, uma cidade que não cabe em cadeias interpretativas é o resultado da experiência de gente, incluída ou não no processo produtivo, o espaço ao mesmo tempo do lugar daquele que fica e do não-lugar daquele que parte a cada ciclo encerrado no corte da cana.
De acordo com Borges (2006) “o não lugar acaba, por sua vez, transformando-se num lugar especial, diferente e com outras características identitárias, desta vez construída por todas as pessoas que fazem a cidade, e não por apenas um segmento, como normalmente acontece nos lugares muito tradicionais”. Há quem afirme ser uma cidade nova, fruto de práticas muito recentes de ocupação capitalista do território, entretanto, para além do fator econômico que motiva a ocupação, esta é o resultado da dinâmica do movimento de pessoas.
Este trabalho é uma oportunidade de compreender a cidade como movimento, visto que “ os lugares amados são os lugares ‘intatos’, e ninguém concorda com esta afirmação com mais veemência do que aqueles que vivem nos lugares ‘estragados’” (Willians, 1989: 341) intentando compreender que a experiência é algo que se produz nessa cidade, com diria Willians já estragada pelo movimento, não como construção de uma realidade, natural, irreversível, mas como prática de representação dessa realidade. E, “considerando não haver prática ou estrutura que não seja produzida pelas representações, contraditórias e em confronto, pelas quais os indivíduos e os grupos dão sentido ao mundo que é o deles” (Chartier, 1991), é que se torna possível compreender a dinâmica da ocupação de Sonora, a “Princesinha do Norte”.
No tocante à compreensão sobre fronteiras utilizamos os estudos de Waibel, para quem a questão é se ainda “temos tais zonas pioneiras no Brasil e, em caso afirmativo, onde estão localizadas [...] o que exige uma melhor definição dos conceitos de frontier e pionner” (1979: 281).
De grande relevância ainda para o presente estudo foi a obra de Martins (1997), para quem o termo fronteira, no Brasil, é tratado de forma particular por geógrafos e antropólogos. Para os primeiros, como um termo que designa uma zona pioneira ou uma frente pioneira. Os segundos, sobretudo a partir dos anos cinqüenta, definiram essas frentes de deslocamento da população civilizada e das atividades econômicas de algum modo reguladas pelo mercado, como frentes de expansão.
A designação de frentes de expansão formulada por Darcy Ribeiro, como “fronteiras de civilização”, tornou-se uso corrente até mesmo entre antropólogos, sociólogos e historiadores que não estavam trabalhando propriamente com situações de fronteira da civilização. Ela expressa a concepção de ocupação do espaço de quem tem como referência as populações indígenas, enquanto a concepção de frente pioneira não leva em conta os índios e tem como referência o empresário, o fazendeiro, o comerciante e o pequeno agricultor moderno e empreendedor (Martins, 1997).
Tais definições parecem apontar que a concepção dos antropólogos sobre a expansão é mais ampla, pois incorpora os índios, desconsiderados por um grupo de estudiosos.
Pierre Monbeig define os índios alcançados (e massacrados) pela frente pioneira no oeste de São Paulo como precursores dessa mesma frente, como se estivessem ali transitoriamente à espera da civilização que acabaria com eles. A ênfase original de suas análises estava no reconhecimento das mudanças radicais na paisagem pela construção de ferrovias, das cidades, pela difusão da agricultura comercial em grande escala, como o café e o algodão.
A partir da reflexão dos conceitos de fronteira, zonas pioneiras e zonas de expansão dos autores supramencionados, Martins (1997) se sente à vontade para fazer uma primeira datação histórica: adiante da fronteira demográfica ou da “civilização”, estão as populações indígenas que sofrem as conseqüências dos processos de expansão. Entre a fronteira demográfica e a fronteira econômica está a frente de expansão, isto é, a frente da população não incluída na fronteira econômica. Atrás da linha da fronteira econômica está a frente pioneira, dominada não só pelos agentes da civilização, mas, também, pelos agentes da modernização que se constituem em agentes da economia capitalista que vai além da economia de mercado. São agentes de mentalidade inovadora, urbana e empreendedora (Martins, 1997).
Ao que tudo indica essa mentalidade esteve presente entre os agentes de colonização da região estudada, assunto que exigirá uma atividade intelectual de maior profundidade e que por ora são caminhos pelos quais ainda dou os primeiros passos.
A mão-de-obra que fixou residência no núcleo urbano de Sonora, popularmente conhecida como “Princesinha do Norte” , desempenhava funções totalmente voltadas às atividades agrícolas, e foi justamente o trabalho na lavoura que contribuiu para atrair mais migrantes o que resultou em relativa expansão populacional. Segundo informações obtidas em pesquisa de campo foi possível constatar as dificuldades iniciais que se colocavam ao trabalhador que se fixou nessa região a partir dos anos de 1970.
“No princípio foi muito ruim porque daqui onde nóis trabalhava dava, mais de 40 Km(...), aí moço nóis ia cedo de madrugada, quando dava 04 horas eu levantava, pegava um trator subia a turma dentro numa carreta da roda dura, nóis ai pra lá, quando era de tarde a gente carregava a carreta de madeira e vinha. (...) mais era uma vida sufrida, que eu nunca vi daquele jeito, cedo de madrugada pra lá e de noite pra cá, um frio. (...) Um dia eu disse, essa vida nossa num ta dano não chegá em casa todo arrebentado por dentro.”
Le Goff (1994:143) no tocante ao trabalho com as fontes orais e com depoimento como os supramencionados, afirma que “nenhum documento é inocente. Deve ser analisado. Todo documento é um monumento que deve ser desestruturado, desmontado. O historiador não deve ser apenas capaz de discernir o que é “falso” , avaliar a credibilidade do documento, mas também desmistificá-los. “Os documentos só passam a ser fontes históricas depois de estar sujeitos a tratamentos destinados a transformar sua função de mentira em confissão de verdade”. É desta forma que me disponho a trabalhar com as fontes orais em minha caminhada de pesquisa histórica.
Segundo dados coletados na pesquisa de campo, constatou-se a ação de empreiteiros encarregados de trazer trabalhadores de outras regiões para o trabalho no corte de cana durante o período de safra. No decorrer da entrevista com o presidente do sindicato dos trabalhadores rurais do município o trabalho era contratado por “gatos”. Quando solicitado para que falasse mais a respeito do trabalho das empreiteiras foi obtido a seguinte resposta:
“... empreiteira, a gente fala assim empreiteira, pra não maltratar muito sabe, porque na verdade é gato mesmo, o famoso gato. Então o gato é o seguinte: o que acontece? Quando o trabalhador ganha 10 reais, por exemplo, o gato ganha 20 em cima do trabalho do trabalhador...”
Thompson (1992) considera que “a História Oral pode certamente ser um meio de transformar tanto o conteúdo quanto a finalidade da História. Pode ser utilizada para alterar o enfoque da própria História e revelar novos campos de investigação (...) pode devolver às pessoas que fizeram e vivenciaram a História um lugar fundamental, mediante suas próprias palavras”. A entrevista com o presidente do sindicato dos trabalhadores rurais é elucidativo da existência desse lugar na história que as pessoas atribuem a si próprias. Halbwachs (1990) discute na obra “Memória Coletiva”, a questão de buscarmos fundamentar questões que já conhecemos por meio do depoimento de outras pessoas, afirma que:
“fazemos apelo aos testemunhos para fortalecer ou debilitar, mas também para completar o que sabemos de um evento do qual já estamos informados de alguma forma, embora muitas circunstâncias nos pareçam obscuras. (...) Ora, a primeira testemunha, à qual podemos sempre apelar, é a nós próprios. (...) Se o que vemos hoje tivesse que tomar lugar dentro do quadro de nossas lembranças antigas, inversamente essas lembranças se adaptariam ao conjunto de nossas percepções atuais. Tudo se passa como se confrontássemos vários depoimentos”.
Para Bauman (2005) “a metodologia utilizada para abordar um assunto busca acima de tudo “revelar” a miríade de conexões entre o objeto da investigação e outras manifestações da vida na sociedade humana”. São essa conexões que tenho buscado fazer em relação ao estudo da região do Vale do Correntes, onde está localizado o município de Sonora no extremo norte do estado de Mato Grosso do Sul. No intuito de compreender os “ Caminhos e os Descaminhos que Conduzem à Sonora” bem como as políticas de incentivo ao processo de ocupação do extremo norte do estado de Mato Grosso do Sul a partir de 1970”, busco entender as questões concernentes ao incentivo governamental na forma de créditos subsidiados que possibilitaram a colonização privada na região do Vale do Correntes, onde atualmente está localizado o município de Sonora ao norte do estado de Mato Grosso do Sul, procuro entender ainda a dinâmica da fronteira que levou à formação daquele espaço, bem como a questão de territorialização, desterritorialização e concepções de identidade com base em autores que trabalham com questões concernentes a Territórios e Fronteiras.
A formação daquele território e das identidades ou do embate entre essas identidades que se encontram ali presentes parecem fazer parte de um quadro geral da sociedade brasileira dos anos de 1970 é o que aponta o jornal “Defesa” no ano de 1975.
“O norte do Mato Grosso começa a repetir a tristemente conhecida história da colonização do norte do Paraná , onde a luta pela terra, com o sacrifício físico e sanguinolento dos contendores era lugar comum.
Aqui também, já é comum a luta fratricida por plano de terra. Veja-se a estatística criminal e constate-se que 60% dos crimes ocorridos no norte do estado são oriundo de questões de terras.”
O artigo do jornal Defesa, de 1975 aponta para a questão da formação do território brasileiro e a violência que a constituição desse território teria gerado, isso pode indicar que os embates teriam levado ao fato de que uma parte da população teria tido acesso a esse território enquanto outra parcela desta população teria sido desterritorializada, não nos cabe nos limites do presente texto discutir as questões de formação de propriedades, em que bases e mediante quais métodos, o que interessa nos limites desta produção diz respeito a uma questão de operacionalização de conceitos e ao tratar da questão da desterritorialização, não poderia deixar de citar HAESBAERT (2006), para quem “o mito da desterritorialização é o mito dos que imaginam que o homem pode viver sem território, que a sociedade pode existir sem territorialidade, como se o movimento de destruição de territórios não fosse sempre, de algum modo, sua reconstrução em novas bases (HAESBAERT:2005)”.
O termo desterritorialização é novo, entretanto os argumentos utilizados em torno dessa questão não são inéditos como aponta HAESBAERT (2005), ao afirmar que “muitas posições de Marx em “O Capital” e no “Manifesto Comunista”revelavam claramente uma preocupação com a “desterritorialização”capitalista, seja a do camponês expropriado, transformado em “trabalhador livre”, e seu êxodo para as cidades, seja a do burguês mergulhado numa vida em constante movimento e transformação, onde “tudo que é sólido desmancha no ar”na famosa expressão popularizada por BERMAN (1986)”.
Parece-me que a obra de BAUMAN (2005) caminha de um pólo à outro das concepções apontadas por Haesbaert, visto que para ele ao mesmo tempo que considera “a questão da identidade como estando ligada ao colapso do Estado de bem-estar social e ao posterior crescimento da sensação de insegurança, com a “corrosão do caráter” que a insegurança e a flexibilidade no local de trabalho têm provocado na sociedade”. Considera também a identidade “como algo revelado a ser inventado, e não descoberto”. Em suma, o discurso que procura estabelecer uma identidade é claramente ideológico, defende interesses que não são necessariamente legítimos.
Enquanto para Haesbaert a desterritorialização é um mito e o que existe na verdade são territórios múltiplos, Bauman fala da existência de desterritorializados “num mundo de soberania territorialmente assentada. Ao mesmo tempo que compartilham a situação de subclasse, eles, acima de todas as privações, têm negado o direito à presença física dentro de um território sob lei soberana, exceto em “não-lugares” especialmente planejados, denominados campos para refugiados ou pessoas em busca de asilo a fim de distingui-los do espaço em que os outros, as pessoas “normais”, “perfeitas”, vivem e se movimenta”.
Ao finalizar este texto compartilho com o leitor, algumas reflexões e analogias que considero possíveis em relação à questão do “não-lugar”, penso que os barracões e alojamentos criados especificamente para os trabalhadores do corte de cana-de-açúcar, em regiões como a do Vale do Correntes, por exemplo, podem ser entendidos como “não-lugares”, pois é o espaço, onde o trabalhador, desterritorializado de seu lugar de origem e sofrendo os efeitos de uma fragmentação da sua identidade e, em alguns casos até mesmo a perda desta, momentos em que chegam à condição de verdadeiros lixos humanos, habitando a tênue fronteira que os separa da condição de seres humanos, os barracões são espaços de uma vida em suspense, à espera sempre do momento de retorno para os locais de origem onde, em geral o que aguarda a maioria desses trabalhadores é uma situação de marginalização social e pobreza. Destaca-se o fato de que a geração que nasceu nos anos de 1970, está sofrendo os efeitos da formação do mundo contemporâneo, especialmente dos anos de 1990, momento em que as pessoas deixam de ser desempregadas e se tornam “redundantes”, ou seja, passam a não ter mais espaço e conforme as palavras de BAUMAN (2005), passam a ser refugo, lixo. A trajetória dos referidos trabalhadores é marcante, visto que o limite entre exclusão e inclusão é muito tênue.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BAUMAN, Zygmunt. “Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi”. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005
BAUMAN, Zygmunt. “Vidas desperdiçadas”. Tradução de Carlos Aberto Medeiros. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005.
BERMAN, Marshall. “Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade”. Trad. de Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioriatti. São Paulo: Cia. das Letras, 1986.
FIGUEIRA, Ricardo Rezende. “Pisando Fora da Própria Sombra: a escravidão por dívida no Brasil contemporâneo.” Rio de Janeiro: civilização brasileira, 2004.
HAERBAERT, Rogério. “O Mito da Desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. 2. Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
HALBWACHS, Maurice. “ Memória Coletiva” .São Paulo: Vértice, 1990.
LE GOFF. Jacques. “ História e Memória”. São Paulo: editora da UNICAMP, 1994.
MARTINS, José de Souza. “Fronteira: a degradação do outro nos confins do humano”.São Paulo: Hucitec, 1997.
MONBEIG, Pierre. Os pioneiros. In: Pioneiros e fazendeiros de São Paulo. São Paulo: Hucitec-Polis, 1984.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
THOMPSON, Edward P. “ A Voz do Passado: História Oral”.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
WAIBEL, Léo. As zonas pioneiras do Brasil. In: “Capítulos de geografia tropical e do Brasil”. 2ª Ed., Rio de janeiro: FIBGE, 1979.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Escravidão por dívida na contemporaneidade
O texto a seguir é um fragmento do livro "Gente Descartável", autoria de Kevin Bales, aponta para uma problemática acerca da qual é fundamental que tomemos conhecimento e nos coloquemos contra, da forma que nos for possível, debatendo a respeito, denunciando. É inconcebível que ainda hoje os casos de exploração humana apontados pelo autor sejam realidade na vida de tantas pessoas.
Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)
A nova escravatura
No Verão, os campos franceses vivem à altura da sua reputação. Se nos sentamos na rua de uma pequena aldeia a uma centena de quilómetros de Paris, a brisa traz-nos o aroma de maçãs do pomar ao lado. Vim aqui para conhecer Seba, (os foram mudados) uma escrava recentemente liberta. É uma jovem de vinte e dois anos, bonita e animada, mas enquanto me conta a sua história retrai-se em si mesma, fumando furiosamente, tremendo, e depois vêm as lágrimas.
Fui criada pela minha avó no Mali, e quando em ainda menina uma mulher que a minha família conhecia chegou e perguntou-lhe se podia levar-me para Paris para cuidar dos filhos dela. Ela disse à minha avó que me punha na escola e que eu aprenderia francês. Mas quando cheguei a Paris não fui mandada para a escola, tive que trabalhar todos os dias. Fazia todo o trabalho na casa deles; fazia as limpezas, cozinhava as refeições, cuidava das crianças, e lavava e alimentava o bebé. Todos os dias começava antes da 7 horas da manhã e acabava às 11 da noite; nunca tive um dia de folga. A minha patroa não fazia nada; dormia até tarde e depois via televisão ou saía.
Um dia eu disse-lhe que queria ir à escola. Respondeu que não me tinha trazido para França para ir à escola mas para cuidar dos filhos dela. Eu estava cansada e esgotada. Tinha problemas com os dentes; por vezes a cara inchava-me e a dor era horrível. Por vezes tinha dores de estômago, mas quando estava doente tinha que trabalhar na mesma. Às vezes, quando tinha dores, chorava, mas a minha patroa gritava comigo. Eu dormia no chão num dos quartos das crianças; a minha comida eram os restos deles. Não podia tirar comida do frigorífico como as crianças. Se eu tirasse comida, ela batia-me. Balia-me muitas vezes. Estava sempre a dar-me bofetadas. Batia-me com a vassoura, com os instrumentos de cozinha, ou chicoteava-me com cabos eléctricos. Às vezes eu sangrava; ainda tenho marcas no corpo.
Uma vez, em 1992, atrasei-me a ir buscar as crianças à escola; a minha patroa e o marido ficaram furiosos comigo e bateram-me e depois empurraram-me para a rua. Eu não tinha para onde ir; não compreendia nada, e andei pelas ruas. Ao fim de algum tempo o marido encontrou-me e levou-me outra vez para casa deles. Ali despiram-me toda, ataram-me as mãos atrás das costas, e começaram a chicotear-me com um arame amarrado a um pau de vassoura. Batiam-me os dois ao mesmo tempo. Eu sangrava muito e gritava, mas eles continuavam a bater-me. Depois ela esfregou malaguetas nas minhas feridas e enfiou-mas na vagina. Perdi os sentidos.
Algum tempo depois, uma das crianças desatou-me. Fiquei deitada no chão, onde me deixaram vários dias. As dores eram horríveis mas ninguém tratou as minhas feridas. Quando me consegui levantar tive que trabalhar outra vez, mas depois disso fiquei sempre fechada em casa. Eles continuaram a bater-me.
Seba foi finalmente libertada quando um vizinho, depois de ouvir os sons dos insultos e espancamentos, conseguiu falar com ela. Vendo-lhe as cicatrizes e as feridas, o vizinho chamou a polícia e o Comité Francês contra a Escravatura Moderna (CCEM), que abriram um processo e tomaram Seba a seu cuidado. Os exames médicos confirmaram que ela tinha sido torturada.
Hoje Seba está bem tratada, vive com uma família de acolhimento. Está a receber assistência e a aprender a ler e a escrever. A recuperação demorará anos, mas ela é uma jovem notavelmente forte. O que me impressionou foi a distância que Seba ainda tem que percorrer. Enquanto falávamos, compreendi que, embora ela tivesse vinte e dois anos e fosse inteligente, a sua compreensão do mundo era menos desenvolvida que a média das crianças de cinco anos. Por exemplo, até ser libertada tinha pouca noção do tempo — sem conhecimento das semanas, meses ou anos. Para Seba havia apenas a interminável roda do trabalho e do sono. Sabia que havia dias quentes e dias frios, mas nunca aprendeu que as estações seguem um padrão. Se alguma vez soube o dia do seu aniversário tinha-o esquecido, e não sabia a sua idade. Fica desorientada com a ideia de «escolha». A sua família de acolhimento tenta ajudá-la a fazer opções, mas ela ainda não consegue entender isso.
Se o caso de Seba fosse único, seria bastante chocante; mas Seba é uma de entre talvez 3000 escravos domésticos em Paris. Essa escravatura não existe também só em Paris. Em Londres, Nova Iorque, Zurique, Los Angeles, e pelo mundo fora, as crianças são brutalizadas como escravos domésticos. E são apenas um pequeno grupo dos escravos do mundo.
A escravatura não é um horror definitivamente arrumado no passado; ela continua a existir em todo o mundo, mesmo em países desenvolvidos como a França e os Estados Unidos. Por todo o mundo os escravos trabalham e suam e constroem e sofrem. Os escravos no Paquistão podem ter fabricado os sapatos que nós calçamos e o tapete que pisamos. Os escravos das Caraíbas podem ter posto o açúcar na nossa cozinha e os brinquedos nas mãos dos nossos filhos. Na Índia, eles podem ter cosido a camisa que vestimos e polido o anel do nosso dedo. E não lhes pagam nada.
Os escravos tocam também indirectamente as nossas vidas. Eles fizeram os tijolos para a fábrica que produziu o aparelho de TV que nós vemos. No Brasil, os escravos produziram o carvão que temperou o aço que fez as molas do nosso carro e a lâmina do cortador de relva. Os escravos cultivaram o arroz que alimentou as mulheres que teceram o belo pano que você usa nos cortinados. A sua carteira de investimentos e o seu fundo mútuo de pensões possuem títulos de empresas que utilizam trabalho escravo no mundo em vias de desenvolvimento. Os escravos mantêm baixos os seus custos e altos os lucros dos seus investimentos.
A escravatura é um negócio em ascensão e o número de escravos está a crescer. Há pessoas que enriquecem usando escravos. E quando já não precisam dos seus escravos, limitam-se a pôr essas pessoas de parte. Esta é a nova escravatura, que se centra nos grandes lucros e nas vidas baratas. Não se trata de possuir pessoas no sentido tradicional da antiga escravatura, mas de controlá-las completamente. As pessoas tornam-se instrumentos completamente descartáveis para fazer dinheiro.
Mais de dez vezes ao acordar de manhã cedo descobri o corpo de uma jovem flutuando na água ao pé da lancha. Ninguém se preocupava em enterrar as raparigas. Lançavam simplesmente os corpos ao rio para serem comidos pelos peixes.
Este era o destino das jovens escravizadas como prostitutas nas cidades mineiras da Amazónia, explicou Antónia Pinto, que ali trabalhou como cozinheira e alcoviteira. Ao mesmo tempo, o mundo desenvolvido deplora a destruição das florestas tropicais, poucas pessoas compreendem que o trabalho escravo é utilizado para as destruir. Os homens são atraídos para a região com promessas de riqueza em pó de ouro, e raparigas de apenas onze anos recebem ofertas de emprego nos escritórios e restaurantes que servem as minas. Quando chegam às longínquas regiões mineiras, os homens são aprisionados e forçados a trabalhar nas minas; as raparigas são espancadas, violadas, e postas a trabalhar como prostitutas. Os seus «agentes de recrutamento» recebem uma pequena soma por cada uma delas, talvez uns 150 dólares. As «recrutas» tornaram-se escravas — não através da posse legal, mas através da autoridade decisiva da violência. A polícia local actua como reforço para controlar os escravos. Como uma jovem explicava: «Aqui os donos de bordéis mandam a polícia bater-nos… se fugimos, eles perseguem-nos, se nos acham matam-nos, ou se não nos matam batem-nos todo o caminho de volta ao bordel.»
Os bordéis são incrivelmente lucrativos. A rapariga que «custa» 150 dólares pode ser vendida para sexo até dez vezes por noite e render 10 000 dólares por mês. As únicas despesas são os pagamentos à polícia e uma bagatela para comida. Se uma rapariga causa problemas, foge ou adoece, é fácil livrar-se dela e substituí-la. Antónia Pinto descreveu o que aconteceu a uma menina de onze anos que se recusou a fazer sexo com um mineiro: «Depois de decapitá-la com o machete, o mineiro circulou na sua lancha rápida, exibindo-a para os outros mineiros, que aplaudiam e gritavam aprovadoramente.»
Como a história destas raparigas mostra, a escravatura, ao contrário do que a maioria de nós foi levada a crer, não acabou. Certamente, a palavra escravatura continua a ser usada para significar toda a espécie de coisas, e demasiadas vezes tem sido aplicada como uma metáfora fácil. Ter dinheiro apenas para sobreviver, receber salários que mal dão para viver, pode chamar-se um salário de escravo, mas não é escravatura. Os meeiros têm uma vida difícil, mas não são escravos. O trabalho infantil é horrível, mas não é necessariamente escravatura.
Podíamos pensar que a escravatura é uma questão de posse, mas isso depende daquilo que entendemos por posse. No passado, a escravatura implicava que uma pessoa possuía legalmente outra pessoa, mas a escravatura moderna é diferente. Hoje, a escravatura é ilegal em toda a parte, e já não há posse legal de seres humanos. Quando as pessoas compram escravos hoje não pedem um recibo nem títulos de propriedade, mas adquirem o controlo — e usam a violência para manter esse controlo. Os escravocratas («Slaveholder» no original. (N. do E.) têm todos os benefícios da propriedade sem as responsabilidades legais. Na verdade, para os escravocratas, não ter a posse legal é uma melhoria, porque obtêm o controlo total sem qualquer responsabilidade por aquilo que possuem.
A despeito desta diferença entre a velha e a nova escravatura, penso que toda a gente concordaria em que aquilo de que falo é escravatura: o controlo total de uma pessoa por outra com fins de exploração económica. A escravatura moderna esconde-se por trás de diferentes máscaras, usando advogados espertos e cortinas de fumo legais, mas quando se arrancam as mentiras, descobrimos alguém controlado pela violência, e a quem é negada toda a liberdade pessoal, para fazer dinheiro para outra pessoa. Ao viajar pelo mundo para estudar a nova escravatura, olhei para lá das máscaras legais e vi pessoas acorrentadas. É claro, muitas pessoas pensam que já não existe uma coisa como a escravatura, e eu era uma dessas pessoas ainda há poucos anos.
Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)
A nova escravatura
No Verão, os campos franceses vivem à altura da sua reputação. Se nos sentamos na rua de uma pequena aldeia a uma centena de quilómetros de Paris, a brisa traz-nos o aroma de maçãs do pomar ao lado. Vim aqui para conhecer Seba, (os foram mudados) uma escrava recentemente liberta. É uma jovem de vinte e dois anos, bonita e animada, mas enquanto me conta a sua história retrai-se em si mesma, fumando furiosamente, tremendo, e depois vêm as lágrimas.
Fui criada pela minha avó no Mali, e quando em ainda menina uma mulher que a minha família conhecia chegou e perguntou-lhe se podia levar-me para Paris para cuidar dos filhos dela. Ela disse à minha avó que me punha na escola e que eu aprenderia francês. Mas quando cheguei a Paris não fui mandada para a escola, tive que trabalhar todos os dias. Fazia todo o trabalho na casa deles; fazia as limpezas, cozinhava as refeições, cuidava das crianças, e lavava e alimentava o bebé. Todos os dias começava antes da 7 horas da manhã e acabava às 11 da noite; nunca tive um dia de folga. A minha patroa não fazia nada; dormia até tarde e depois via televisão ou saía.
Um dia eu disse-lhe que queria ir à escola. Respondeu que não me tinha trazido para França para ir à escola mas para cuidar dos filhos dela. Eu estava cansada e esgotada. Tinha problemas com os dentes; por vezes a cara inchava-me e a dor era horrível. Por vezes tinha dores de estômago, mas quando estava doente tinha que trabalhar na mesma. Às vezes, quando tinha dores, chorava, mas a minha patroa gritava comigo. Eu dormia no chão num dos quartos das crianças; a minha comida eram os restos deles. Não podia tirar comida do frigorífico como as crianças. Se eu tirasse comida, ela batia-me. Balia-me muitas vezes. Estava sempre a dar-me bofetadas. Batia-me com a vassoura, com os instrumentos de cozinha, ou chicoteava-me com cabos eléctricos. Às vezes eu sangrava; ainda tenho marcas no corpo.
Uma vez, em 1992, atrasei-me a ir buscar as crianças à escola; a minha patroa e o marido ficaram furiosos comigo e bateram-me e depois empurraram-me para a rua. Eu não tinha para onde ir; não compreendia nada, e andei pelas ruas. Ao fim de algum tempo o marido encontrou-me e levou-me outra vez para casa deles. Ali despiram-me toda, ataram-me as mãos atrás das costas, e começaram a chicotear-me com um arame amarrado a um pau de vassoura. Batiam-me os dois ao mesmo tempo. Eu sangrava muito e gritava, mas eles continuavam a bater-me. Depois ela esfregou malaguetas nas minhas feridas e enfiou-mas na vagina. Perdi os sentidos.
Algum tempo depois, uma das crianças desatou-me. Fiquei deitada no chão, onde me deixaram vários dias. As dores eram horríveis mas ninguém tratou as minhas feridas. Quando me consegui levantar tive que trabalhar outra vez, mas depois disso fiquei sempre fechada em casa. Eles continuaram a bater-me.
Seba foi finalmente libertada quando um vizinho, depois de ouvir os sons dos insultos e espancamentos, conseguiu falar com ela. Vendo-lhe as cicatrizes e as feridas, o vizinho chamou a polícia e o Comité Francês contra a Escravatura Moderna (CCEM), que abriram um processo e tomaram Seba a seu cuidado. Os exames médicos confirmaram que ela tinha sido torturada.
Hoje Seba está bem tratada, vive com uma família de acolhimento. Está a receber assistência e a aprender a ler e a escrever. A recuperação demorará anos, mas ela é uma jovem notavelmente forte. O que me impressionou foi a distância que Seba ainda tem que percorrer. Enquanto falávamos, compreendi que, embora ela tivesse vinte e dois anos e fosse inteligente, a sua compreensão do mundo era menos desenvolvida que a média das crianças de cinco anos. Por exemplo, até ser libertada tinha pouca noção do tempo — sem conhecimento das semanas, meses ou anos. Para Seba havia apenas a interminável roda do trabalho e do sono. Sabia que havia dias quentes e dias frios, mas nunca aprendeu que as estações seguem um padrão. Se alguma vez soube o dia do seu aniversário tinha-o esquecido, e não sabia a sua idade. Fica desorientada com a ideia de «escolha». A sua família de acolhimento tenta ajudá-la a fazer opções, mas ela ainda não consegue entender isso.
Se o caso de Seba fosse único, seria bastante chocante; mas Seba é uma de entre talvez 3000 escravos domésticos em Paris. Essa escravatura não existe também só em Paris. Em Londres, Nova Iorque, Zurique, Los Angeles, e pelo mundo fora, as crianças são brutalizadas como escravos domésticos. E são apenas um pequeno grupo dos escravos do mundo.
A escravatura não é um horror definitivamente arrumado no passado; ela continua a existir em todo o mundo, mesmo em países desenvolvidos como a França e os Estados Unidos. Por todo o mundo os escravos trabalham e suam e constroem e sofrem. Os escravos no Paquistão podem ter fabricado os sapatos que nós calçamos e o tapete que pisamos. Os escravos das Caraíbas podem ter posto o açúcar na nossa cozinha e os brinquedos nas mãos dos nossos filhos. Na Índia, eles podem ter cosido a camisa que vestimos e polido o anel do nosso dedo. E não lhes pagam nada.
Os escravos tocam também indirectamente as nossas vidas. Eles fizeram os tijolos para a fábrica que produziu o aparelho de TV que nós vemos. No Brasil, os escravos produziram o carvão que temperou o aço que fez as molas do nosso carro e a lâmina do cortador de relva. Os escravos cultivaram o arroz que alimentou as mulheres que teceram o belo pano que você usa nos cortinados. A sua carteira de investimentos e o seu fundo mútuo de pensões possuem títulos de empresas que utilizam trabalho escravo no mundo em vias de desenvolvimento. Os escravos mantêm baixos os seus custos e altos os lucros dos seus investimentos.
A escravatura é um negócio em ascensão e o número de escravos está a crescer. Há pessoas que enriquecem usando escravos. E quando já não precisam dos seus escravos, limitam-se a pôr essas pessoas de parte. Esta é a nova escravatura, que se centra nos grandes lucros e nas vidas baratas. Não se trata de possuir pessoas no sentido tradicional da antiga escravatura, mas de controlá-las completamente. As pessoas tornam-se instrumentos completamente descartáveis para fazer dinheiro.
Mais de dez vezes ao acordar de manhã cedo descobri o corpo de uma jovem flutuando na água ao pé da lancha. Ninguém se preocupava em enterrar as raparigas. Lançavam simplesmente os corpos ao rio para serem comidos pelos peixes.
Este era o destino das jovens escravizadas como prostitutas nas cidades mineiras da Amazónia, explicou Antónia Pinto, que ali trabalhou como cozinheira e alcoviteira. Ao mesmo tempo, o mundo desenvolvido deplora a destruição das florestas tropicais, poucas pessoas compreendem que o trabalho escravo é utilizado para as destruir. Os homens são atraídos para a região com promessas de riqueza em pó de ouro, e raparigas de apenas onze anos recebem ofertas de emprego nos escritórios e restaurantes que servem as minas. Quando chegam às longínquas regiões mineiras, os homens são aprisionados e forçados a trabalhar nas minas; as raparigas são espancadas, violadas, e postas a trabalhar como prostitutas. Os seus «agentes de recrutamento» recebem uma pequena soma por cada uma delas, talvez uns 150 dólares. As «recrutas» tornaram-se escravas — não através da posse legal, mas através da autoridade decisiva da violência. A polícia local actua como reforço para controlar os escravos. Como uma jovem explicava: «Aqui os donos de bordéis mandam a polícia bater-nos… se fugimos, eles perseguem-nos, se nos acham matam-nos, ou se não nos matam batem-nos todo o caminho de volta ao bordel.»
Os bordéis são incrivelmente lucrativos. A rapariga que «custa» 150 dólares pode ser vendida para sexo até dez vezes por noite e render 10 000 dólares por mês. As únicas despesas são os pagamentos à polícia e uma bagatela para comida. Se uma rapariga causa problemas, foge ou adoece, é fácil livrar-se dela e substituí-la. Antónia Pinto descreveu o que aconteceu a uma menina de onze anos que se recusou a fazer sexo com um mineiro: «Depois de decapitá-la com o machete, o mineiro circulou na sua lancha rápida, exibindo-a para os outros mineiros, que aplaudiam e gritavam aprovadoramente.»
Como a história destas raparigas mostra, a escravatura, ao contrário do que a maioria de nós foi levada a crer, não acabou. Certamente, a palavra escravatura continua a ser usada para significar toda a espécie de coisas, e demasiadas vezes tem sido aplicada como uma metáfora fácil. Ter dinheiro apenas para sobreviver, receber salários que mal dão para viver, pode chamar-se um salário de escravo, mas não é escravatura. Os meeiros têm uma vida difícil, mas não são escravos. O trabalho infantil é horrível, mas não é necessariamente escravatura.
Podíamos pensar que a escravatura é uma questão de posse, mas isso depende daquilo que entendemos por posse. No passado, a escravatura implicava que uma pessoa possuía legalmente outra pessoa, mas a escravatura moderna é diferente. Hoje, a escravatura é ilegal em toda a parte, e já não há posse legal de seres humanos. Quando as pessoas compram escravos hoje não pedem um recibo nem títulos de propriedade, mas adquirem o controlo — e usam a violência para manter esse controlo. Os escravocratas («Slaveholder» no original. (N. do E.) têm todos os benefícios da propriedade sem as responsabilidades legais. Na verdade, para os escravocratas, não ter a posse legal é uma melhoria, porque obtêm o controlo total sem qualquer responsabilidade por aquilo que possuem.
A despeito desta diferença entre a velha e a nova escravatura, penso que toda a gente concordaria em que aquilo de que falo é escravatura: o controlo total de uma pessoa por outra com fins de exploração económica. A escravatura moderna esconde-se por trás de diferentes máscaras, usando advogados espertos e cortinas de fumo legais, mas quando se arrancam as mentiras, descobrimos alguém controlado pela violência, e a quem é negada toda a liberdade pessoal, para fazer dinheiro para outra pessoa. Ao viajar pelo mundo para estudar a nova escravatura, olhei para lá das máscaras legais e vi pessoas acorrentadas. É claro, muitas pessoas pensam que já não existe uma coisa como a escravatura, e eu era uma dessas pessoas ainda há poucos anos.
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