quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

HISTÓRIA E MÚSICA

HISTÓRIA E MÚSICA




Sugestão didática para trabalho com Música e História.

O material a seguir foi trabalhado em sala de turmas de 3ª Série do Ensino Médio na disciplina de História sob minha orientação. O conteúdo exposto faz alusão a um álbum musical intitulado "Cantando a História" do grupo vocal Garganta Profunda, baseado no livro "Brasil Século XX - Ao Pé da Letra da Canção Popular" de Luciana Salles Worms e Wellington Borges Costa.

A meu ver a contextualização histórico-musical que foi criada no álbum é uma mostra do quanto o ensino de história pode mudar as posturas de alunos em diversos níveis de ensino a proposta aqui apresentada é uma mudança de postura cultural que prime pela valorização da canções brasileiras, apresentando ao jovem a riqueza cultural do Brasil que passa bem longe daquilo que a mídia veicula ao grande público. Penso que esse é o papel da escola, trabalhando com essa postura de transformação, acredito que seja possível dar condições para o desenvolvimento do sujeito histórico, não alienado e que tenha opinião.

Ao longo do desenvolvimento da atividade os alunos poderão perceber que as criações musicais são fruto de um processo histórico, portanto que o estudo de História não se restringe a coisas mortas e a um passado sem sentido, essa ciência é vida e seu objeto é o ser humano, homens e mulheres numa trajetória de lutas e mudanças ao longo do tempo.

Fica aqui uma sugestão didática que segundo comprovada experiência faz muito sucesso entre o público estudantil.



HISTÓRIA E MÚSICA

* Boa parte da produção a seguir foi retirado do álbum musical "Cantando a História", entretanto essa produção vem permeada por toques apaixonados de uma educadora-historiadora.



“O tempo não para”, e conforme se movimento nos transforma, esse é o sentido da vida, perceber o movimento e não ficar alheio a ele. A meu ver esse é o sentido da História, ou seja, perceber o movimento do ser humano em sua atuação sobre o Planeta Terra.

Numa sociedade em constante movimento é louvável que se resgate a História de nosso país para as novas gerações. Desta forma a música é uma maneira fantástica de expressar a História do romantismo de “Jura” à contemporaneidade de “Parabolicamará”, nossa História sempre foi marcada pela sensibilidade daqueles que, habilmente, colocaram em letra e melodia o momento em que viviam, mesmo sem saber, pintavam com suas músicas o retrato, ora preto e branco, ora colorido, de uma época que passou, mas muito responsável pelo que somos hoje.



No início do século XX e da República no Brasil, reinava no Carnaval, nos teatros de revista e nos discos, José Barbosa da Silva, o Sinhô. O samba era ainda muito próximo de outro ritmo afrodescendente, o maxixe, ideal para se dançar a dois. As manifestações culturais africanas eram muito reprimidas pela polícia e portar violão era motivo para que o sujeito fosse preso pela polícia.



No final de década de 20, morria Sinhô e nascia a primeira escola de samba do Brasil, a Deixa Falar, fundada por Ismael Silva. A solução rítmica para que o samba orientasse os desfiles nas ruas foi a incorporação de dois instrumentos de percussão: o surdo e o tamborim. A temática preferencial das letras desse novo samba era a figura do malandro carioca.



JURA

Jura

Jura, jura pelo Senhor

Jura

Pela imagem

da Santa Cruz do Redentor

pra ter valo

a tua jura

Jura, jura de coração

Para que um dia

Eu possa dar-te o meu amor

Sem mais pensar na ilusão



Daí então dar-te eu irei

Um beijo puro na catedral

Do amor

Dos sonhos meus

Bem junto aos teus

Para sentirmos as emoções do amor



Sinhô

SE VOCÊ JURAR

Se você jurar que me tem amor

Eu posso me regenerar

Mas se é para fingir, mulher

A orgia assim não vou deixar



Muito tenho sofrido

Por minha lealdade

Agora estou sabido

Não vou atrás de amizade

A minha vida é boa

Não tenho em que pensar

Por uma coisa à toa

Não vou me regenerar



A mulher é um jogo

Difícil de acertar

E o homem como um bobo

Não se cansa de jogar

O que eu posso fazer

É se você jurar

Arriscar a perder

Ou desta vez então ganhar



Ismael Silva/Francisco Alves/Nilton Bastos



Ao mesmo tempo que se processava uma revolução no samba, em 1930, acontecia a Revolução que faria com que Getúlio Vargas pusesse fim à chamada República do Café com Leite em que as oligarquias rurais paulistas e mineiras se revezavam no poder. Vários compositores brancos de classe média aderiram ao samba de Ismael Silva, Noel Rosa, por exemplo, compôs, com Vadico, estes versos sobre melodia, que deixam clara a mudança no panorama político: São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba.


FEITIÇO DA VILA

Quem nasce lá na Vila/ Nem sequer vacila

Ao abraçar o samba

Que faz dançar os galhos do arvoredo

E faz a lua nascer mais cedo

Lá em Vila Isabel/Quem é bacharel

Não tem medo de samba

São Paulo dá café/Minas dá leite

E a Vila Isabel dá Samba,



A Vila tem um feitiço sem farofa

Sem vela e sem vintém/ que nos faz em

Tendo nome de princesa

Transformou o samba num feitiço decente

Que prende a gente

O sol da Vila é triste/ Samba não assiste

Porque a gente implora:

Sol pelo amor de Deus não venha agora

Que as morenas vão logo embora...



Eu sei por onde passo/sei tudo que faço

Paixão não me aniquila

Mas tenho que dizer, modéstia à parte

Meus senhores eu sou da Vila!

                             Noel Rosa/Vadico





Um dos grandes pilares do regime de Getúlio Vargas foi a radiodifusão. Brilharam várias cantoras do rádio. Dentre elas, Emilinha Borba, que surgiu estimujlada por Carmem Miranda, a “Embaixatriz da Boa Vizinhança”. Nesta marchinha de carnaval gravada em 1949, Braguinha ( João de Barro) brinca com o existencialismo francês, que influenciou a cultura mundial pós-guerra. No Brasil, essa influência gerou as tristes canções de dor-de-cotovelo que imperavam no rádio o ano inteiro. As alegres marchas, com esta, ficavam confinadas aos quatro dias de carnaval.


CHIQUITA BACANA

Chiquita Bacana

lá da Martinica

Se veste com uma casca

de banana nanica



não usa vestido

não usa calção

inverno pra ela

É pleno verão

Existencialista

Com toda razão

Só faz o que manda

O seu coração.
                       João de Barro/Alberto Ribeiro

O regime de Getúlio Vargas, por meio do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), promovia canções ufanistas de exaltação à pátria. Ary Barroso era um dos maiores expoentes desse tipo de música. A grande intérprete dessas canções era Carmem Miranda. Por problemas de cachê Ary foi substituído por um jovem compositor baiano cujos versos seriam imortalizados pela “Pequena Notável”. Dorival Caymmi, inclusive, além das canções, sugeriu vários ingredientes do indefectível figurino de Carmem Miranda.

O SAMBA DA MINHA TERRA

Samba da minha terra

Deixa a gente mole

Quando se canto todo mundo bole

Quem não gosta de samba

Bom sujeito não é

É ruim da cabeça

Ou doente do pé

Eu nasci com o samba

No samba me criei

E do danado do samba

Nunca me separei
                   Dorival Caymmi

A Bossa Nova veio pôr fim ao “baixo astral” da dor de cotovelo do pós-guerra. Não havia mais motivo para a tristeza: o Brasil vivia um período democrático, ganha a Copa do Mundo, a tenista Maria Esther Bueno era bicampeã do torneio tênis de Wimbledon. A batida de violão de João Gilberto, somada à melodia de Tom Jobim e à poesia de Vinícius de Moraes, colocava a música brasileira como produto de exportação. O centro histórico desse período foi o governo Juscelino Kubitschek.
O PATO

O pato vinha cantando alegremente, quen, quen

Quando um marreco sorridente pediu

Para entrar também no samba

O ganso

Gostou da dupla e fez também quen, quen

Olhou pro cisne

E disse assim “vem, vem”

Que o quarteto ficará bom

Muito bom, muito bem

Na beira da lagoa foram ensaiar

Para começar o tico-tico no fubá

A voz do pato era mesmo desacato

Jogo de cena com o ganso era mato

Mas eu gostei do final

Quando caíram na água

Ensaiando o vocal

                     Neusa Teixeira/Jaime Silva



O período em que o Brasil viveu sob democracia e liberdade e que justificava as letras da Bossa Nova foi muito curto entre duas ditaduras. Com o golpe de 1964, muitos artistas egressos da Bossa Nova entenderam que não havia mais clima para cantar barcos, patos e namoradas. A música tornou-se apenas “pretexto para o protesto”. Para dizer não ao regime militar


DISPARADA

Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar

Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão

Eu venho lá do setão e posso não lhe agradar

Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar

A morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo

Estava fora do lugar, eu vivo pra consertar

Na boiada já fui boi, ma um dia me montei

Não por um motiva meu, ou de quem comigo houvesse

Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade

Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu

Boiadeiro muito tempo, laço firme e braço forte

Muito gado, muita gente, pela vida segurei

Seguia como num sonho, e boiadeiro era um rei

Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo

E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando

As visões se clareando, até que dia acordei

Então não pude seguir valente em lugar tenente

E o dono de gado é gente, porque gado a gente marca

Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente

Se você não concordar não posso me desculpar

Não canto pra enganar, vou pegar minha viola

Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei

Não por mim nem por ninguém, que junto comigo houvesse

Que quisesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu

Por qualquer coisa de seu querer ir mais longe do que eu

Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo

E já que um dia montei agora sou cavaleiro

Laço firme e braço forte num reino que não tem rei

Geraldo Vandré/Théo de Barros


O teatro de operações para a batalha que se travava entre os adeptos da Música de Protesto, da Jovem Guarda e do Tropicalismo foram os festivais da canção. “Ponteio” venceu o festival da TV Record de 1967, superando Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil.

PONTEIO

Era um, era dois, era cem

Era o mundo chegando e ninguém

Que soubesse que eu sou violeiro

Que me desse o amor ou dinheiro

Era um, era dois, era cem

Vieram pra me perguntar

Ô você: - de onde vai, de onde vem?

Diga logo o que tem pra contar

Parado no meio do mundo

Senti chegar meu momento

Olhei pro mundo e nem via

Nem sombra, nem sol, nem vento

Que me dera agora eu tivesse a viola pra cantar

Era um dia, era claro, quase meio

Era um canto calado, sem ponteio

Violência, viola, violeiro

Era a morte ao redor, mundo inteiro

Era um dia, era claro, quase meio

Tinha um que jurou me quebrar

Mas não lembro de dor nem receio

Só sabia da ondas do mar

Jogaram a viola no mundo

Mas fui lá no fundo buscar

Se eu tomo a viola, ponteio

Meu canto não posso parar, não

Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar

Era um, era dois, era cem

Era um dia, era claro, quase meio

Encerrar meu cantar, j´[a convém

Prometendo um novo ponteio

Certo dia que sei por inteiro

Eu espero não vá demorar

Esse dia estou certo que vem

Digo logo que vem pra buscar

Correndo no meio do mundo

Não deixo a viola de lado

Vou ver o tempo mudado

E um novo lugar pra cantar

Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar

Edu Lobo/Capinam



Com a popularização da televisão, os lares brasileiros foram invadidos por uma legião de jovens artistas comandado por Roberto Carlos. Era a Jovem Guarda. Os requebros de Elvis Presley e os cabelos compridos dos Beatles e Rolling Stones ganharam versão brasileira: yeah, yeah, yeah virou iê-iê-iê. Aos adeptos da canção de protesto causavam ojeriza as guitarras elétricas e demais instrumentos plugados na tomada vistos como símbolo da alienação e subserviência ao imperialismo norte americano. Em São Paulo, chegou a acontecer uma passeata contra as guitarras na música brasileira.

BOM

Ah! Meu carro é vermelho

Não uso espelho pra me pentear

Botinha sem meia

E só na areia eu sei trabalhar

Cabelo na testa sou o dono da festa

Pertenço aos dez mais

Se você quiser experimentar

Sei que vai gostar

Quando eu apareço

O comentário é geral

Ele é o bom é o bom demais

Ter muitas garotas pra mim é normal

Ele é o bom entre os dez mais
                                                Carlos Imperial



Entre o não e o iê-iê-iê, surgiu o muito pelo contrário. Inspirados pela Antropofagia Cultural do poeta Oswald de Andrade, os artiistas da Tropicália entendiam que não havia problema algum em se incorporarem guitarras e ritmos estrangeiros à música brasileira desde que se despejasse tudo em um caldeirão de cultura em que essas influências fossem devoradas e misturada à arte brasileira em uma grande geléia geral.

TROPICÁLIA

Sobre a cabeça os aviões

Sob os meus pés os caminhões

Aponta contra os chapadões, meu nariz

Eu organizo o movimento

Eu oriento o carnaval

Eu inauguro um monumento

No planalto Central do país

Viva a bossa sa as

Viva a palhoça ç aça ça...

O monumento é de papel crepom e prata

Os olhos verdes da mulata

A cabeleira esconde atrás da verde mata o luar do sertão

O monumento não tem porta

A entrada é uma rua antiga,

Estreita e torta

E no joelho uma criança sorridente,

Feia e morta

Estende a mão

Viva a mata ta ta

Viva a mulata ta ta ta

No pátio interno há uma piscina

Com água azul de Amaralina

Coqueiro, brisa e fala nordestina

E faróis

Na mão direita tem uma roseira

Autenticando eterna primavera

E no jardim os urubus passeiam

A tarde inteira

Entre os girassóis...

Viva Maria ia ia

Viva a Bahia ia ia ia...

No pulso esquerdo o bang bang

Em suas veias corre muito pouco sangue

Mas seu coração

Balança a um sambe de tamborim

Emite acordes dissonantes

Pelos cinco mil alto-falantes

Senhoras e senhoer

Ele põe os olhos grandes sobre mim

Viva Ipanema ma ma ma...

Domigo é o fino-da-bossa

segunda-feira está na fossa

terça-feira vai a roça

porém, o monumento

é bem moderno

não disse nada domodelo do meu terno

que tudo mais vá pro inferno meu bem

que tudo mais vá pro inferno meu bem

viva a banda da da

Carmem Miranda da da da da
                            Caetano Veloso


O regime militar se acirrou muito depois do AI-5, em dezembro de 1968. Muitos brasileiros foram presos, torturados, mortos e exilados. Em exílio voluntário no início dos anos 70, Chico Buarque rompeu com a imagem de bom moço. De volta ao Brasil, especializou-se na arte de dobrar a censura. Em parceria com Francis Hime, em 1976, compôs esta homenagem ao dramaturgo e amigo Augusto Boal, exilado involuntariamente em Portugal.


MEU CARO AMIGO

Meu caro amigo me perdoe, por favor

Se eu não lhe faço uma visita

Mas como agora apareceu um portador

Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock in roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta

Muita mutreta pra levar a situação

Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça

E a gente vai tomando, que também, sem cachaça

Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar

Nem atiçar suas saudades

Mas acontece que não posso me furtar

A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock in roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão

Que a gente vai levando só de birra só de sarro

E a gent vai fumando que ,também, sem um cigarro

Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar

Mas a tarifa não tem graça

Eu ando aflito pra fazer você ficar

A par de tudo que se passa

Aqui na terra tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock in roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta

Muita careta pra engolir a transação

E a gente ta engolindo cada sapo no caminho

E a gente vai se amando que, também, sem um carinho

Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever

Mas o correi andou arisco

Se me permitem, vou tentar lhe remete

Notícias frescas nesse disco

Aqui na terra tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock in roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero lhe dizer que a coisa aqui ta preta

A Marieta manda um beijo para os seus

Um beijo na família, na Cecília e nas crianças

O Francis aproveita pra também mandar lembranças

A todo o pessoal

Adeus

             Chico Buarque/Francis Hime


Com a anistia os presos e exilados políticos e o pluripartidarismo, o Brasil dos anos 80 marca o fim do regime militar e a luta pelas eleições direta. A trilha sonora que vai cantar esse príodo da chamada Nova República é o pop-rock nacional. Compositores que cresceram durante a ditadura militar passam a gozar de uma liberdade de expressão e não economizam preocupações políticas em suas letras. Essa “Geração coca-cola”, o BRrock, ganhou o mercado fonográfico nacional. Roqueiro brasileiro deixou de ter cara de bandido e redimiu a guitarra

BRASIL

Não me convidaram

Pra essa festa pobre

Que os homens armaram pra me convencer

A pagar sem ver

Toda essa droga

Que já vem malhada antes de eu nascr

Não me ofereceram

Nem um cigarro

Fiquei na porta estacionando os carros

Não me elegeram

Chefe de nada

O meu cartão de crédito é uma navalha

Brasil

Mostra tua cara

Quero ver quem paga

Pra gente ficar assim

Brasil

Qual é teu negócio?

O nome do teu sócio?

Confia em mim

Não me convidaram pra essa festa pobre

Que os homens armaram pra me convencer

A pagar sem ver

Toda essa droga

Que já vem malhada antes de eu nascr

Não me sortearam

A garota do “fantástico”

Não me subornaram

Será que o meu fim

Ver TV a cores

Na taba de um índio

Programada pra só dizer sim, sim

Grande pátria desimportante

Em nenhum instante

Eu vou te trair

(não vou te trair)
                                  Cazuza/Jorge Israel/Nilo Romero



Na última década do século, o brasileiro foi às ruas exigir o impeachment de Fernando Collor e elegeu duas vezes Fernando Henrique Cardoso. A relação entre FHC e Chico Buarque é muito antiga. O presidente fora aluno do pai do compositor, Chico por sua vez, apoiou as candidaturas de Fernando Henrique ao senado em 1978 e à prefeitura de São Paulo em 1985. já presidente pela segunda vez, em entrevista a uma publicação portuguesa sobre cultura lusófona, Fernando Henrique enalteceu Caetano Veloso, que o apoiara publicamente em 94 e depreciou Chico Buarque, que apoiara Lula em 94 e 98. Embora Chico negue, como sempre, este samba pode ser lido como uma resposta à injúria do presidente.

INJURIADO

Se eu só lhe fizesse o bem

Talvez fosse um vício a mais

Você me teria desprezo por fim

Porém não fui tão imprudente

E agora não há francamente

Motivo pra você me injuriar assim

Dinheiro não lhe emprestei

Favores nunca lhe fiz

Não alimentei o seu gênio ruim

Você nada está me devendo

Por isso meu bem, não entendo

Porque anda agora falando de mim

Dinheiro não lhe emprestei...
                                       Chico Buarque

No final do século XX, ganha extrema importância a informática, com a popularização do PC (computador pessoal) e da rede mundial de computadores, a Internet. A reboque, entram no vocabulário brasileiro uma série de estrangeirismos, notadamente os de língua inglesa, satirizados nesta canção de Zeca Baleiro, representante de uma nova geração de herdeiros da nossa tradição trovadoresca.


SAMBA DO APPROACH

Venha provar meu brunch

Saiba que eu tenho approach

Na hora do lanche

Eu ando de ferry boat

Eu tenho savoir-fair

Meu temperamento é light

Minha casa é high tech

Toda hora rola um insight

Já fui fã do Jethro Tull

Hoje me amarro no Slash

Minha vida agora é cool

Meu passado é que foi trash

Fica ligada no link

Que eu vou confessar my love

Depois do décimo drink

Só um bom e velho Engov

Eu tirei meu Green Card

E fui pra Miami Beach

Posso não ser pop star

Mas já sou um noveau rich

Eu tenho sex-appeal

Saca só meu background

Veloz com Damon Hill

Tenaz com Fittipaldi

Não dispenso um happy end

Posso jogar no dream team

De dia um macho man

E de noite drag queen
                      Zeca Baleiro



A globalização é um tema que toma conta do debate no final do século XX e começo do XXI. A interligação instantânea e a integração comercial e cultural dos mais longínquos rincões do planeta geram inclusão por um lado e a exclusão de milhões de seres humanos em países pobres, por outro. Em termos nacionais, a grande questão que se coloca ao Brasil é que tipo de inserção nos mercados globais o aguarda: uma inserção soberana e justa ou uma inserção subserviente e colonizada?



PARABOLICAMARÁ

Antes mundo era pequeno

Porque terra era grande

Hoje mundo é muito grande

Porque Terra é pequena

Do tamanho da antena Parabolicamará

Ê, volta do mundo, camará

Ê-ê, mundo dá volta, camará

Antes longe era distante

Perto só quando dava

Quando muito ali defronte

E o horizonte acabava

Hoje lá trás dos monte, den de casa, camará

De jangada leva uma eternidade

De saveiro leva uma encarnação

Pela onda luminosa

Leva o tempo de um raio

Tempo que levava Rosa

Pra aprumar o balaio

Quando sentia que o balaio ia escorregar

Esse tempo nunca passa

Não é de ontem nem de hoje

Mora no som da cabeça

Nem ta preso nem foge

No instante que tange o berimbau, meu camará

De jangada leva uma eternidade,

De saveiro leva uma encarnação

De avuão, o tempo de uma saudade

Esse tempo não tem rédea

Vem nas asas do vento

O momento da tragédia

Chico, Ferreira e Bento

Só souberam na hora do destino apresentar

3 comentários:

Rosan disse...

Oi Beatriz! Como vai a vida? Espero que bem!

Sou seu colega de profissão, vejo a música como instrumento que auxilia na construção de conhecimento. Estava buscando algo para acrescentar aquilo que tenho trabalhado em sala de aula. Com isso, fazendo uma pesquisa na internet sobre "música e história" encontrei seu blog. Adorei! Inclusive comprei o livro que você citou. Seu texto trouxe uma grande contribuiçaõ para minha prática docente.
Um forte abraço!!!

Rosan Pinto
Professor de História

casimiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bia disse...

Rosan,fico satisfeita em saber que o trabalho que tenho feito em sala de aula pode ajudar em outras aulas de História pelo Brasil. Use e reproduza o material à vontade.
Um abraço.