sexta-feira, 9 de abril de 2010

Casa-grande & Senzala (fichamento)

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala. 42. Ed. Rio de Janeiro: Record.2001.

Gilberto Freyre, na obra “Casa Grande e Senzala”, opta por uma forma específica de apresentar as origens da sociedade brasileira, esta forma é a cotidianidade das relações entre nativos, europeus e africanos. Para tanto, empreende um trabalho minucioso de representação das práticas de cada um desses grupos, apontando para um processo de miscigenação que criou um novo modelo cultural específico da sociedade brasileira.
O retrato de brasileiro produzido por Freyre, fruto do processo de miscigenação, étnica e cultural, nos parece conduzir a um modelo de interpretação muito parecido com aquele idealizado por Turner ao estudar a fronteira nos Estados Unidos, aponta para o fato de que na fronteira não predomina os hábitos do colonizador, mas forja-se um novo modelo cultural de homem com traços daquele que colonizou, mecanismo utilizado inclusive para driblar as situações de adversidade que são típicas em regiões de fronteira. A tese de Turner apresenta uma idéia revolucionária, uma vez que o núcleo da sua teoria é que houve uma adaptação do europeu ao nativo, para sua posterior retomada do legado transatlântico, transformado, no entanto, pela experiência americana, que não teve ampla aceitação de imediato e só veio a ganhar simpatizantes anos depois da feira de Chicago. Segundo WEGNER , as primeiras avaliações foram frias e formais, e somente uma década depois passou a ganhar simpatizantes, até alcançar, na segunda década de nosso século, uma aceitação generalizada entre os historiadores norte-americanos.
Freyre aponta para esse novo homem que foi forjado no território brasileiro, buscando inicialmente o nativo para garantir seus interesses e extraindo desse hábitos que garantiriam sua permanência em terras tão adversas, mais tarde, com a vinda do africano, a quem é atribuída parcela importante da modificação dos hábitos do europeu.
Outro conceito que nos parece ser relevante para pensar a obra Casa-grande & Senzala é o de transculturação (Sahlins, 2003), ao fazer referência às três matrizes culturais que constituíram a sociedade brasileira, Freyre, mesmo com posicionamentos intelectuais de período bastante diverso de Sahlins, parece apontar para a existência de “culturas diferentes com historicidades diferentes” (Sahlins, 2003:11).
As críticas à obra (inúmeras e as mais variadas), não parece suprimir a importância de uma interpretação sui generis acerca da constituição da sociedade brasileira.

Fichamento.
Gilberto Freyre
Uma Introdução a Casa-Grande & Senzala.
Darcy Ribeiro
“(...) ele gosta que se enrosca de si mesmo (...).
(...) em torno dele se orquestra um culto que Gilberto preside contente e insaciável.(..)
(...) ficamos todos mais brasileiro com a sua obra.(...)
(...) Gilberto Freyre escreveu, de fato, a obra mais importante da cultura brasileira.” P. 11
“ Creio que poderíamos passar sem qualqer dos nossos ensaios e romances, ainda que fosse o melhor que se escreu no Brasil. Mas não passaríamos sem Casa-Grande & Senzala, sem sermos outros. (...)
(...) um homem com estudos universitários no estrangeiro que freqüentava candomblés, gostava da boa comida baiana e conhecia cachaça fina. Um homem ávido de viver e de rire, que tinha prazer em admirar e gosto em louvar. (...)
(...) Casa Grande & Senzala aconteceu em 1933 como algo explosivo, de insólito de realmente novo, a romper anos e anos de rotina e chão batido. (...) P. 12
“ Evidenciados esses fatos, a questão que se coloca é saber como pôde o menino fidalgo dos Freyre; o rapazinho anglófilo do Recife; o moço elitista que viaja para os Estados Unidos querendo fazer-se protestante para ser mais norte-americano; o oficial de gabinete de um governador reacionário- como pôde ele- aparentemente tão inapto para esta façanha, engendrar a interpretação arejada e bela da vida colonial brasileira que é Casa Grande & Senzala.(...)
(...) O certo é que o fidalgote GF ajudou como ninguém o Brasil a tomar consciência de suas qualidades, principalmente das bizarras. (...) P. 13
(...) Gilberto é sucessivamente senhorial, branco, cristão, adulto, maduro, sem deixar de ser o oposto em outros contextos, ao se vestir e sentir excravo, herege, índio, menino, mulher, efeminado. As dualidades não se esgotam aí mas se estendem nas de pai-e-filho, senhor-e-escravo, mulher-e-marido, devoto-e-santo, civilizado-e-selvagem, que Gilberto vai encarnando para mostrar-se pelo direito e pelo avesso, página após página, linha por linha.” P. 14
“(...) É duvidoso que esta forma de compor se justifique muito no plano da ciência, mas não há nenhuma dúvida de que ela é excelente no plano literário.” P. 15
“(...) não há precedente de nenhum estudioso que tenha rejeitado tão veementemente quanto Gilberto o que todos consideram como a linguagem apropriada, a terminologia especializada, a expressão adquada, ou seja, esse linguajar sombrio e solene, em geral pesadíssimo, com que os cientistas escrevem ou, no máximo, esta língua elegante, imaginosa, discretamente poética que uns poucos alcançam em alguns textos muito especiais.(...)
O que mais ressalte em CG&S é a combinação bem-sucedida de suas qualidades de estudo científico documentadíssimo e cheio de agudas observações, com as de cração deliberadamente literária. (...) saber e a arte (...)a ciência, além de fazer-se mais inteligentes (...) e de libertar-se de uma quantidade de modismos, que compõe um livro que se lê com prazer.” (...) P. 16 e 17
“Uma leitura atenta de GF revela, também, muita contradição íntima entre os valores professados e os valores realmente atuantes como seus critérios existenciais. Sirva de exemplo o sadomasoquismo que ele atribui ao brasileiro. Sadismo ao branco, masoquismo do índio e do negro. (...)” P. 17
(...) não seria mais do que um atavismo social, um laivo do puro gosto de sofrer, de ser vítima ou de sacrificar-se, que singularizaria o brasileiro comum.
Entusiasmado com sua descoberta, GF a generaliza, procurando explicar o conservadorismo brasileiro pela precocidade com que saímos do regime escravocrata, o que resultaria, por um lado, no sadismo do mando, disfarçado de princípio de Autoridade e defesa da ordem e, por outro lado, nos traços binários de sadistas-masoquistas, senhores-escravos, doutores-analfabetos. (...)
(...) Em sua propensão a tudo esconder atrás de um suposto relativismo cultural, esta antropologia se torna capaz de apreciar favoravelmente as culturas mais elementares e até de enlanguecer-se em saudosismo do bizarro e em amores estremecidos pelo folclórico. (...) Em lugar disso o que faz é justificar o despotismo.” P. 18
“Afinal, que é a história, senão esta reconstituição alegórica do passado vivente que nos ajuda a compor nosso discurso sobre o que estamos sendo?(...)
(...) Ao longo das páginas de CG&S, atiçados por GF, vamos imaginando, vendo e sentino o que foi atra´ves dos séculos o Brasil, em seu esforço de construir-se a si próprio como produto indesejado de um projeto que visava a produzir açúcar, ouro e café ou, em essência, lucros, mas que resultou em engendrar um povo inteiro.” P. 19
“(...) CG&S, tal como foi composta, não aspira à formulação de uma teoria geral sobre coisa alguma. O que ela quer é levar-nos pela mão, ao engenho, a um engenho que não existe- à abstração-engenho feita de todos os engenhos concretos de que Gilberto teve notícia – para mostrá-lo no que ele poderia ter sido, no que terá chegado a ser naquel Nordeste do Brasil de 1600 a 1800.” P. 21
(...) Trata-se (...) de procurar ver como gentes, organizada ou não em família, representando diferentes papéis recíprocos, produzem e reproduzem a si mesmas e às suas formas de vida, pela procriação, pelo trabalho e através de formas coletiva de culto. (...) Sobretudo, porque o olho que olha é olho do que veem ainda do lado de ciad.
O que desjo dizer aqui é, tão-só, que obviamente tem conseqüências o fato de que quem escreveu CG&S não ser um estranho, mas sim o protagonista de elite, fidalgo, minoritários na inumerável massa humana, que edificou com suor aquela civilização. Naturalmente, o escravo não fez tudo sozinho porque trabalhou debaixo de ordens de um capataz que sabia muito, e este debaixo da vigilância de um senhor que, se não sabia nada, era quem sabia mais dos aspectos traficanciais do negócio.” P.24
“ É Gilberto por isso um alienado? – Não! O que lhe sobre é autenticidade. Ele fala não só de cátedra, fala como um íntimo e fala convincentemente, como um conivente confesso. Não é nesta intimidade, entretanto, que resido o segredo resgatável da “metodologia” de Gilberto. Seria como pensar que quem sabe mesmo de tuberculose são os tuberculosos. Gilberto é sábio porque à sua proximidade e identificação de observador não participante- mas mancomunado- ele alia a qualidade oposta, que é a visão de fora – o olho de inglês (...) -, a capacidade de ver o bizarro on de o pernambucano da melhor cepa não veria nada.
A teoria subjacente da obra de GF parece ser a da causação circular, formulada mais tarde pelos funcionalistas. A ideia básica aqui é a de que, como tudo pode chegar a se, em dadas circunstância, a causa de qualquer coisa, não há na verdade nenhuma causa suficiente de nada. (...) P. 25
(...)De fato, CG&S é uma acumulação de observações minuciosas e de apreciações abrangentes, combinada com um método que se prestou admiravelmente ao propósito de dar uma visão de conjunto e um conhecimento interno de uma sociedade real, vivente, concreta e unívoca. (...) P. 25 – 26
(...) O que a maioria dos cientistas e dos ensaístas brasileiros faz é, no máximo, ilustra com exemplos locais a genialidade das teses de seus mestres. Não foi assim com Gilberto. De um lado, porque Boas não tinha teorias que devessem ser comprovadas ou ilustradas com material brasileiro. De outro lado, porque o que ele pedia a seu discípulo era que realizasse operações detalhadas de observação e de interpretação de realidades viventes para compor, depois, com matéria de lavra própria, sua ética e sua estética de opereta.” P.26
“ O mais admirável em Gilberto Freyre, tão anglófilo e tão achegado aos norte-americanos, é que ele não se tenha colonizado culturalmente. O risco foi enorme. (...) Em Casa Grande & Senzala simplesmente não há método nenhum. Quero dizer, nenhuma abordagem a que o autor tenha sido fiel. Nenhum método que o leitor possa extrair da obra, como um enfoque aplicável em qualquer parte.” P. 27
“O tema de Casa-Grande & Senzala é o estudo integrado do complexo sociocultural que se construiu na zona florestal úmida do litoral nordestino do Brasil, com base na monocultura latifundiária de cana-de-açúcar, na força de trabalho escrava, quase exclusivamente negra; na religiosidade católica imprgnada de crenças indígen as e de práticas africanas; no domínio patriarcal do senhor de engenho, recluído na casa-grande com sua esposa e seus filhos, mas polígamo, cruzando com as negras e as mestiça.” P.28-29
“(...) Mas é uma pena que a miopia fidalga de Gilberto não lhe tenha permitido reconstituir essa matiz do Brasil, esta não-família, esta antifamília matricêntrica de ontem e de hoje, que é a mãe pobre, preta ou branca, parideira, que gerou e criou o Brasil-massa.” P. 29
“Para GF o índio é o silvícola nômada, de cultura ainda não agrícola, apesar das lavouras de mandioca, cará, milho, jerimum, mamão, praticada pelas tribos menos atrasadas. Só nesta lista há fatos suficientes para falr-se de uma gricultura tropical, desenvolvida pelo indígena, que haveria retirado todas essas espécies de do estado selvagem, convertendo-as em plantas domésticas; (...)” P. 32
“Onde Gilberto Freyre nos dá um painel realmente expressivo, onde ele indaga com maior liberdade e isenção, onde ele renova corajosamente a visão brasileira, é no exame do papel desenraizador do jesuíta. (...)” P. 34
(...) enfeitiçado pela famulagem doméstica, ele não olha nem vê o negro massa, o negro multidão.” P. 38

Prefácio à 1ª. Edição
“ Vencedores no sentido militar e técnico sobre as populações indígenas; dominadores absolutos dos negros importados da África para o durão trabalho da bagacera, os europeus e seus descendentes tiveram entretanto de transigir com índios e africanos quanto às relações genéticas e sociais. A escassez de mulheres brancas criou zonas de confraternização entre vencedores e vencidos, entre senhores e escravos.(...) P. 46
“Spengler salienta que uma raça não transporta de um continente a outro; seria preciso que se transportasse com ela o meio físico. (...) P. 47
“(...) Basta comparar-se a planta de uma casa-grande brasileira do século XVI com a de um solar lusitano do século XV para sentir a diferença enorme entre o português do reino e o português do Brasil.(...)” P. 48
“(...) a casa-grande principal não foi apenas fortaleza, capela, escola, oficina, santa casa, harém, com convento de moças , hospedaria. Desempenhou outra função importante na economia brasileira: foi também banco.(...) P. 52
“ Em contraste com o nomadismo aventureiro dos bandeirantes – em sua maioria mestiços de brancos com índios – os senhores das casas-grandes representaram na formação brasileira a tend~encia mais caracteristicamente portuguesa, isto é, pé-de-boi, no sentido de estabilidade patriarcal. Estabilidade aboiada no açúcar (engenho) e no negro (senzala). (...)” P. 54
“A casa-grande, embora associada particularmente ao engenho de cana, ao patriarcalismo nortista, não se deve considerar expressão exclusiva do açúcar, mas da monocultura escravocrata e latifundiária em geral: criou-a no Sul o café taão brasileiro como no Norte o açúcar. (...)” P. 55
(...) Outro meio de nos sentirmos nos outros – nos que viveram antes de nós; e em Cuma vida se antecipou a nossa. É um passado que se estuda tocando em nervos; um passado que emenda com a vida de cada um; uma aventura de sensibilidade, não apenas um esforço de pesquisa pelos arquivos.” P. 56
“(...) Ensaio de Sociologia genética e de História social, pretendendo fixar e às vezes interpretar alguns dos aspectos mais significativos da formação da família brasileira.” P.61
Cap. I
Características Gerais da Colonização Portuguesa do Brasil: Formação de uma sociedade Agrária, Escravocrata e Híbrida
“Formou-se na América tropical uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio – e mais tarde de negro – na composição. (...) P. 79
“ A singular predisposição do português para a colonização híbrida e escravocrata dos trópicos, explica-a em grande parte o seu passado étnico, ou antes, culutral de povo indefinido entre a Europa e a África. (...) P. 80
“A mobilidade foi um dos segredos da vitória portuguesa; sem ela não se explicaria tem um Portugal quase sem gente, um pessoalzinho ralo, insignificante em número (...) conseguido salpicar virilmente do seu resto de sangue e de cultura populações tão diversa e a tão grandes distância uma das outras: na Ásia, na África, na América, em numerosas ilhas e arquipélagos. (...) “ P. 83
“(...) o nosso lirismo amoroso não revela outra tendência senão a glorificação da mulata, da cabocla, da morena celebrada pela beleza dos seus olhos, pela alvura dos seus dentes, pelos seus dengues, quindins e embelegos muito mais do que as “virgens pálidas” e as “louras donzelas”. (...)
“Outra circunstância ou condição favoreceu o português, tanto quanto a miscibilidade e a mobilidade, na conquista de terras e no domínio de povos tropicais: a aclimatabiliade.” P.85
“(...) os portugueses triunfaram onde outros europeus falharam: de formação portuguesa é a primeira sociedade moderna constituída nos trópicos com característicos nacionais e qualidades de permanência. Qualidades que no Brasil madrugaram, em vez de se retardarem como nas possessões tropicais de ingleses, franceses e holandeses.” P. 86
“O português(...): por todas aquelas felizes predisposições de raças de mesologia e de cultura a que nos referimos, não só conseguiu vencer as condições de clima e de solo desfavoráveis ao estabelecimento de europeus nos trópicos, como suprir a extrema penúria de gente branca para a tarefa colonizadora unido-se com mulher de cor. (...) os potugueses que pela hibridização realizariam no Brasil obra verdadeira de colonização, vencendo a adversidade do clima.” P. 87
“ O português, no Brasil teve de mudar quase radicalmente o seu sitema de alimentação, cuja base se deslocou, com sensível déficit, do trigo para a mandioca.(...) A esse respeito o colonizador inglês dos Estados Unidos levou sobre o português do Brasil decidida vantagem, ali encontrando condições de vida física e fontes de nutrição semelhantes às da mãe-pátria (...) A falta desses recursos como a diferença nas condições meteorológicas e geológicas em que teve de processar-se o trabalho agrícola realizado pelo negro mas dirigido pelo europeu dá à obra de colonização dos portuguese um caráter de obra criadora, original, a que não pode aspirar nem a dos ingleses na América do Norte nem a dos espanhóis na Argentina.” P. 89
“No Brasil, como nas colônias inglesas de tabaco, de algodão e de arroz da América do Norte, as grandes plantações foram obra não do Estado colonizador, sempre somítico em Portugal, mas de corajosa iniciativa particular.(...)” P. 91
“(...) Foi a iniciativa particular que, concorrendo às sesmarias, dispôs-se a vir povoar e defender militarmente como era exigência real, as muitas léguas de terra em bruto que o trabalho negro fecundaria. (...)” P.92
“Atraídos pelas possibilidades de uma vida livre, inteiramente solta, no meio de muita mulher nua, aqui se estabeleceram por gosto ou vontade própria muitos europeus do tipo que Paulo Prado retrata em traços de forte realismo. Garanhões desbragados.” P.95
“O Brasil formou-se, despreocupados os seus colonizadores da unidade ou pureza de raça. (...) Handelmann notou que para ser admitido como colono do Brail no século XVI principal exigência era professar a religião cristã:(...)” P.102
“A cana-de-açúcar começou a ser cultivada em São Vicente e em Pernambuco, estendendo-se depois à Bahia e ao Maranhão a sua cultura, que onde logrou êxito (...) trouxe em conseqüência uma sociedade e um gênero de vida de tendências mais ou menos aristocráticas e escravocratas. (...) P. 104
“Na formação da nossa sociedade, o mau regime alimentar decorrente da monocultura, por um lado, e por outro da inadaptação ao clima, agiu sobre o desenvolvimento físico a eficiência econômica do brasileiro no mesmo mau sentido do clima deprimente e do solo quimicamente pobre. A mesma economia latifundiária e escravocrata que tornou possível o desenvolvimento econômico do Brasil, sua relativa estabilidade em contraste com as turbulências nos países vizinhos, envenenou-o nas suas fontes de nutrição e de vida.” P. 107
“ Na zona agrícola tamanho foi sempre o descuido por outra lavoura exceta a da cana-de-açúcar ou a do tabaco, que a Bahia, com todo o seu fasto, chegou no século XVIII a sofrer de ‘extraordinária falta de farinha’, pelo que de 1788 em diante mandaram os governadores da capitania incluir nas datas de terra a cláusula de que ficava o proprietário obrigado a plantar ‘ mil covas de mandioca por cada escravo que possuísse empregado na cultura da terra’.” P. 109
“ Má nos engenhos e péssima nas cidades: tal a alimentação da sociedade brasileira nos século XVI, XVII e XVIII. (...)
Nem frutas nem legumes; que então tirados verdes para escaparem à gana dos passarinhos, dos tapurus e dos insetos. A carne que se encontrava era magra, de gado vindo de longe, dos sertões, sem pastos que o refizessem da penosa viagem. Porque as grandes lavouras de açúcar ou de tabaco não se deixavam manchar de pastos pra os bois descidos dos sertões e destinados ao corte. Bois e vacas que não fossem os de serviço eram como se fossem animais danados para os latifundiários.” P.112
“ O escravo negro no Brasil parece-nos ter sido, com todas as deficências do seu regima alimentar, o elemento melhor nutrido em nossa sociedade patriarcal, e dele parece que numerosos descendentes conservaram bgons hábitos alimentares, explicando-se em grande parte pelo fator dieta (...) ascendência africana muitas das melhores expressões de vigor ou de beleza física em nosso país: (...)” P. 116
“À vantagem da miscigenação correspondeu no Brasil a desvantagem tremenda da sifilização. Começaram juntas, uma a formar o brasileiro- talvez o tipo ideal do homem moderno para os trópico, europeu com sangue negro ou índio a avivar-lhe a energia; outra, a deformá-lo. (...)
De todas as influências sociais talvez a sífilis tenha sido, depois da má nutrição a mais deformadora da plástica e a mais depauperadora da energia econômica do mestiço brasileiro. (...)
Costuma dizer-se que a civilização e a sifilização andam juntas: o Brasil entretanto, parece ter-se sifilizado antes de se haver civilizado. (...)
Sob o ponto de vista da miscigenação foram aqueles povoadores à-toa que prepararam o campo para o único processo de colonização que teria sido possível no Brasil: o da formação, pela poligamia – (...) – de uma sociedade híbrida. (...)” P. 119
“Uma circunstância significativa resta-nos destacar na formação brasileira: a de não ter se processado no puro sentido da europeização. Em vez de dura e seca, rangendo do esforço de adaptar-se a condições inteiramente estranhas, a cultura européia se pôs em contado com a indígena, amaciada pelo óleo da mediação africana. (...) P. 123-124
“ Considerada de modo geral, a formação brasileira tem sido, na verdade,(...)um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura europeia e a indígena. A européia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo.” P. 125
Cap. II
O Indígena na Formação da Família Brasileira
“(...) a colonização européia vem surpreender nesta parte da América quase que bandos de crianças grandes; uma cultura verde e incipiente; ainda na primeira dentição; sem os ossos nem o desenvolvimento nem a resistência das grandes semicivilizações americanas.” P. 161
“Híbrida desde o início, a sociedade brasileira é de todas da América a que se constituiu mais harmoniosamente quanto às relações de raça: dentro de um ambiente de quase reciprocidade cultural que resultou no máximo de aproveitamento dos valores e experiências dos povos atrasados pelo adiantado; (...) P. 163
(...) A transigência com o elemento nativo se impunha à política colonial portuguesa: as circunstâncias facilitaram-na. A luxúria dos indivíduos, solts sem família, no meio da indiada nua, vinha servir a poderosas razões do Estado no sentido de rápido povoamento mestiço da nova terra. (...)” P. 164
“Mas é só a partir do meado do século XVI que pode considerar-se formada, diz Basílio de Magalhães, ‘ a primeira geração de mamelucos’; os mestiços de portugueses com índios, com definido valor demogênico e social. Os formados pelos primeiros coitos não oferecem senão o interesse, (...) de terem servido de caço ou de forro para a grande sociedade híbrida que is constituir-se. (...)” P. 165
“ Havia entre os ameríndios desta parte do continente, como entre os povos primitivos em geral, certa fraternidade entre o homem e o anima, certo lirismo mesmo nas relações entre os dois. (...)” P. 170
“Era natural a europeus surpreendidos por uma moral sexual tão diversa da sua concluírem pela extrema luxúria dos indígenas; entretanto, dos dois povos, o conquistador talvez fosse o mais luxurioso. “ P. 172
“Mas para os selvagens da América do Sul o vermelho não era só, ao lado do preto, cor profilática, capaz de resguardar o corpo humano de influência maléficas; nem cor tonificante, com a faculdade de dar vigor às mulheres parida e aos convalescentes e resistência aos indivíduos empenhados em trabalho duro ou exaustivo; nem a cor da felicidade, com o poder mágico de atrair a caça ou caçador (..). Era ainda a cor erótica, de sedução ou atração, menos por beleza ou qualidade estética do que pro magia: a cor de que se pintavam os mesmos Canelo para seduzir mulher; (...)” P. 178
“(..) não nos esqueçamos, entretanto, de atentar no que foi para o indígena, e do ponto de vista de sua cultura, o contato com o europeu. Contato dissolvente. Entre as populações nativas da América, dominadas pelo colono ou pelo missionário, a degradação moral foi completa como sempre acontece ao juntar-se uma cultura, já adiantada, com outras atrasadas.” P. 179
“Entre os seus era a mulher índia o principal valor econômico e técnico. Um pouco besta de carga e um pouco escrava do homem. Mas superior a ele na capacidade de utilizar as cousas e de produzir o necessário à vida e ao conforto comuns.” P. 186
“A culinária nacional – (...) – ficaria empobrecida, e sua individualidade profundamente afetada, se se acabasse com os quitutes de origem indígena: eles dão um gosto à alimentação brasileira que nem os pratos de origem lusitana nem os manjares africanos jamais substituiriam. (...) P. 192
“ Da tradição indígena ficou no brasileiro o gosto pelos jogos e brinques infanir de arremedo de animais: o próprio jogo de azar, chamado do bicho, taão popular no Brasil, encontra base para tamanha popularidade no resíduo animista e totêmica de cultura ameríndia reforçada depois pela africana. (...)” P. 204
“Ao atingir a puberdade cortavam-lhe o cabelo no estilo que Frei Vicente do Salvador descreve como de cabelo de frade; também à menina cortava-se o cabelo à homem. A segregação do menino, uma vez atingida a puberdade, nos clubes ou casas secretas dos homens, chamadas baito entre as tribos do Brasil Central, parece que visava assegura ao sexo masculino o domínio sobre o feminino: educar o adolescente para exercer esse domínio. (...) o menino aprendia a tatá a mulher de resto; a sentir-se sempre superior a ela; a abrir-se em intimidade não com a mãe nem com mulher nenhuma, mas com o pai e com os amigos. (...) Do que resultava ambiente propício à homossexualidade.
(...)Webster (...) nessas organizações secrtas dos primitivos processava-se uma verdadeira educação moral e técnica do menino; o seu preparo para as responsabilidades e privilégios de homem. (...) P. 205
“Do indígena de cultura totêmica e animista, ficaria no brasileira, especialmente quand menino, uma atitude insensivelmente totêmica e animista em face das plantas e dos animais (...). É o folclore, são os contos populares, as superstições, as tradições que o indicam. (...)” P. 208
“(...) O brasileiro é por excelência o pova da crença no sobrenatural: em tudo o que nos rodeia sentimos o toque de influência estranhas; de vez em quando os jornais revelam casos de aparições, mal-assombrados, encantamentos. Daí o sucesso em nosso meio de alto e do baixo espiritismo.” P. 209
“ A melhor atenção do jesuíta no Brasil fixou-se vantajosamente no menino indígena. Vantajosamente sob o ponto de vista, que dominava o padre da S.J., de dissolver no selvagem, o mais breve possível, tudo o que fosse valor nativo em conflito sério com a teologia e com a moral da Igreja. (...)” P. 214
“Ficou-nos, (...), dessa primeira dualidade de línguas, a dos senhores e a dos nativos, uma de luxo, oficial, outra popular, para o gasto – (...)” P. 216
“(...)Verifica-se (...) desde oprimeiro século a contemporização hábil do estilo religios ou católico de ladainha co as formas de canto indígena. (...)” P.218
“Tudo se processou através do escravo ou do “administrado”, cuo braço possante era “a só riqueza, o único objeto a que tendiam as ambições dos colonizares”. Até que essa riqueza se foi corrompendo sob os efeitos disgênicos do novo regime de vida. O trabalho sedentário e contínuo, as doenças adquiridas ao contato dos brancos, ou pela adoção, forçada ou espontânea, dos seus costumes a sífilis, a bexiga, a disenteria, os catarros forma dando cabo dos índios: do seu sangue, da sua a vitalidade , da sua energia. “ P. 222
“(...) o Brasil é dos países americanos onde mais se tem salvo da cultura e dos valores nativos. (...) se desde o primeiro contato com a cultura indígena feriu-a de morte, não foi para abatê-la de repente, com a mesma fúria dos ingleses na América do Norte. Deu-lhe tempo de perpetuar-se em várias sobrevivências úteis.” P. 225-226
Cap. III
O Colonizador Português: Antecedentes e Predisposições
“O escravocrata terrível que só faltou transportar da África para a América, em navios imundos , que de longe se adivinhavam pela inhaca, a população inteira de negros, foi por outro lado o colonizador europeu que melhor confraternizou com as raças chamadas inferiores. (...) plasticidade social, maior no português que em qualquer outro colonizador europeu.” P. 255
“A descoberta do Brasil enquadra-se no grande programa marítimo e comercial inaugurado pela viagem de Vasco da Gama;(...)”
O Brasil foi como uma carta de paus puxado num jogo de trunfo em ouros. P. 263
“Os que dividem Portugal em dois, um louro, que seria o aristocrático, outro moreno ou negróide, que seria o plebeu, ignoram o verdadeiro sentido da formação portuguesa. Nesta andaram sempre revezando-se as hegemonias e os predomínios não só de raça como de cultura e de classe. (...)” P. 266
“Portugal é por excelência o país europeu do louro transitório ou do meio-louro. (...) P. 268
“Que a invasão moura e berbere não foi a primeira a alagar de pardo ou de preto os extremos meridionais da Europa, particularmente Portugal – (...) – já ficou indicado. Indicada a possibilidade de ter sido de origem africana o fundo considerado indígena da população peninsular. De modo que ao invadirem a Península, árabes, mouros, berberes, muçulmanos foram-se assenhoreando de região já amaciada pelo sangue e pala sua cultura; e talvez mais sua do que da Europa. Sua por esse passado humano; e, em largos trechos, pelo clima, pela vegetação.” P. 273
“(...) em país nenhum, dos modernos, tem sido maior a mobilidade de uma classe para outra e, digamos assim, de uma raça para outra, do que em Portugal. (...)” P. 274
“Inúmeras as famílias nobres que em Portugal, com na Espanha, absorveram sangue de árabe ou mouro. Alguns dos cavaleiros que mais se salientaram nas guerras de reconquista pelo ardo mata-mouros do seu cristianismo conservaram nas veias sangue infiel. Muito terá sido, por outro lado, o sangue espanhol ou português, ortodoxamente cristão, que, dissolvido no de maometanos, emigrou para a África Menos. (...)” P. 278-279
“Refere Alexandre Herculano que, após a invasão acompanhada de intensa miscibilidade, tornaram-se comuns os nomes mistos: (...). O que dá bem a ideia da contemporização social entre vencidos e vencedores. Ideia exata de quanto foi plástica, movediça e flutuante a sociedade moçárabe em Portugal.” P. 279
“Diversos outros valores materiais, absorvidos da cultura moura ou árabe pelos protugueses, tranmitiram-se ao Brasil: a arte do azulejo que tanto relevo tomou em nossas igrejas, conventos, residência, banheiro, bicas e chafarizes; a telha mourisca; a janela quadriculada ou em xadrez; a gelosia; o abalcoado; as paredes grossas. Também o conhecimento de vários quitutes e processos culinários, certo gosto pelas comidas oleosas, gordas, ricas em açúcar. O cuscuz, hoje tão brasileiro, é de origem norte-africana.” P. 284-285
“Um ponto nos surge claro e evidente: a ação criadora, e de modo nenhum parasitária das grandes corporações religiosas(...) na formação econômica de Portugal. Eles foram como que os verdadeiros antecessores dos grande proprietários brasileiros. (...)”P. 295
“Colonizou o Brasil uma nação de homens mal nutridos. (...)
A deficiência não foi, porém, só de carne de vaca: também de leitoe e de vegetais. (...) P. 297
“Os jejuns devem ser tomados na dvida conta por quem estudo o rgime de alimentação do povo português, sobretudo durante os séculos em que sua vida doméstica andou mais duramente fiscalizada pelo olar severo da Inquisição. Da Inquisição e do jesuíta. Dois olhos tirânicos, fazendo as vezes dos de Deus. Fiscalizando tudo.” P. 299
“Engana-se, ao nosso ver, quem supõe ter o português se corrompido na colonização da África, da Índia e do Brasil. Quando ele projetou por dois terços do mundo sua grande sombra de escravocrata, já suas fontes de vida e de saúde econômica se achavam comprometidas. (...) P.302
“Para a escravidão, saliente-se mais uma vez que não necessitava o português de nenhum estímulo. Nenhum europeu mais predisposto ao regime de trabalho escravo do que ele. No caso brasileiro, porém, parece-nos injusto acusar o português de ter manchado, com instituição que hoje tanto nos repugna, sua obra grandiosa de colonização tropical. (...)” P. 304
“(...) Mesmo nos nomes de doces e bolos de convento, fabricado por mãos seráficas, de freiras, sente-se às vezes a intenção afrodisíaca, o toque fescenino a confundir-se com o místico: (...). Não podendo entregar-se em carne a todos os seus adoradores, muitas freiras davam-se a eles nos bolos e caramelo. Estes adquiriam uma espécie de simbolismo sexual. (...)” P. 311
“O português no Brasil muito transigiu com a higiene nativa, quer a da habitação quer a pessoal. Na pessoal, adotando o banho diário e desembaraçando as crianças dos cueiros e abafos grossos. Na da habitação, adotando dos índios a coberta de palha, como adotara dos asiáticos a parede grossa e o alpendre. Também teve o bom senso de não desprezar de todo os curandeiros indígenas pela medicina oficial, apesar dos jesuítas declararem àqueles guerra de morte. (...)”P. 315
“A questão da degenerescência de europeus que se têm conservado relativamente puros no Brasil é dificílima de apurar diante das condições de instabilidade social características de nossa formação agrária. (...)” P. 318
“(...)Foi (..) em que se fundou a colonização aristocrática do Brasil: em açúcar e em negros.” P.321
“Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – (...) a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro. (...)” P. 343
“Não nos interessa, senão indiretamente, nesse ensaio, a importância do negro na vida estética, muito menos no puro progresso econômico, do Brasil. Devemos, entretanto, recordar que foi imensa. No litoral agrário, muito maior, ao nosso ver, que a do indígena. Maior, em certo sentido, que a do português.” P. 344
(...) Por todos esses traços de cultura material e moral revelaram-se os escravos negros, dos estoque mais adiantados, em condições de concorrer melhor que os índios à formação econômica e social do Brasil. Às vezes melhor que os portugueses.” P.346
“Tais contrastes de disposição psíquica e de adaptação talvez biológica ao clima quente explicam em parte ter sido o negro na América Portuguesa o maior e mais plástico colaborador do branco na obra de colonização agrária; o fato de haver até desempenhado entre os indígenas uma missão civilizador no sentido europeizante.(...)” P. 348
“Nada se negam diferenças mentais entre brancos e negros. Mas até que ponto essas diferenças representam aptidões inatas ou especializações devidas ao ambiente ou às circunstância econômicas de cultura é problema dificílimo de apurar. (...)
Lowi parece-nos colocar a questão em seus verdadeiros termos. Como Franz Boas, ele considera o fenômeno das diferenças mentais entre grupos humanos mais do ponto de vista da história cultural e do ambiente de cada um do que da hereditariedade ou do meio geográfico puro. (...) P. 356
(...) importaram-se para o Brasil, da área mais penetrada pelo Islamismo, negros maometanos de cultura superior não só à dos indígenas com à da grande maioria dos colonos brancos- (...)” P. 357
“ As evidência histórica mostram assim, ao lado das pesquisas antropológicas e de lingüística realizadas por Nina Rodrigues entre os negros da Bahia, a frouxa base em que se firma a ideia da colonização exclusivamente banto do Brail. Ao lado da língua banto, da quimbunda ou congoense falaram-se entre os nossos negros outras línguas-gerais: a gege, a haúça, a nagô ou ioruba – que Varnhagen dá como mais falada do que o português entre os antigos negros da Bahia. Língua ainda hoje prestigiada pelo fato de ser o latim do culto gege-iorubano.” P. 360
“O Brasil não se limitou a recolher da Áfriaca a lama de gente preta que lhe fecundou os canaviais e os cafezais; que lhe amaciou a terra seca; que lhe completou a riqueza das manchas de massapé. Vieram-lhe da África ‘donas de casa’ para seus colonos sem mulher branca; técnicas para as minas. Artífices em ferro; negros entendidos na criação de gado e na indústria pastoril; comerciantes de panos e sabão; mestres, sacerdotes e tiradores de reza maometanos. (...)” P. 365
“Goldenwiser salienta quanto é absurdo julgar-se o negro, sua capacidade de trabalho e sua inteligência, através do esforço por ele desenvolvido nas plantações da América sob o regime da escravidão. O negro deve ser julgado pela atividade industrial por ele desenvolvida no ambiente de sua própria cultura, com interesse e entusiasmo pelo trabalho.
(...) A escravidão desenraizou o negro do seu meio social e de família, soltando-o entre gente estranha e muitas vezes hostil. Dentro de tal ambiente, no contato de forças tão dissolventes, seria absurdo esperar do escravo outro comportamento senão o imoral, de que tanto o acusam.” P. 371
“O negro no brsil, nas suas relações com cultura e com o tipo de sociedade que aqui se vem desenvolvendo, deve ser considerado principalmente sob o critério da História social e econômica. Da Antropologia cultura. Daí ser impossível – (..) – separá-lo da condição degradante de escravos, dentro da qual abafaram-se nele muitas das suas melhores tendências criadoras e normais para acentuaram-se outra, artificiais e até mórbidas. (...) P. 377
“As histórias portuguesas sofreram no Brasil consideráveis modificações na boca das negras velhas ou amas-de-leite. Forram as negras que se tornaram entre nós as grandes contadoras de histórias. Os africanos, lembra A. B. Ellis, possuem os seus contistas. ‘Alguns indivíduos fazem profissão de contar histórias e andam de lugar em lugar recitando contos.’ ” P. 386
“Quanto maior crueldade das senhoras que dos senhores no tratamento dos escravos é fato geralmente observado nas sociedades escravocratas. Confirmam-no os nossos cronistas. Os viajantes, o folclore, a tradição oral. Não são dois nem três, porém muitos os casos de crueldade de senhoras de engenho contra escravos inermes.(...)” P. 392
“O que os casamentos entre parentes tão comuns no Brasil do tempo da escravidão, nunca impediram, foi que lutas tremendas separassem primos e até irmãos, genros e sogros, tios e sobrinhos, extremando-os em inimigos de morte; que grandes famílias se empenhassem em verdadeiras guerras por questões de heranças ou de terras, às vezes por motivos de honra ou de partidarismo político. (..)” P. 397
“(...) A religião tornou-se oponto de encontro e de confraternização entre as duas cultura, a do senhor e a do negro; e nunca uma intransponível ou dura bareira. (...)
A liberdade do escravo de conservar e até de ostentar em festa pública – (...) – formas e acessórios de sua mítica, de sua cultura fetichista e totêmica, dá bem a ideia do processo de aproximação das duas culturas no Brasil. (...)” P. 410
“A mortalidade infantil vimos que foi enorme entre as populações indígenas desde o século XVI. Naturalmente devido ao contato perturbador e disgênico com a raça conquistadora. (...)” P. 418
“As causas da mortalidade infantil no Brasil do tempo da escravidão – (...) – fixa-as principalmente ao sistema econômico da escravidão, isto é, aos costumes sociais dele decorrentes: a falta de educação física e moral e intelectual das mães; desproporção na idade dos cônjuges; freqüência de nascimentos ilícitos. Devendo acrescentar-se: o regime impróprio da alimentação; o aleitamento por escravas nem sempre em condições higiênicas de criar; a sífilis dos pais ou das amas. (...)” P. 420
“O menino do tempo da escravidão parece que descontava os sofrimentos da primeira infância – (..) – tornando-se dos cinco aos dez anos verdadeiro menino-diabo. (...)” P. 421
“Nenhuma casa-grande do tempo da escravidão quis para si a glória de conservar filhos maricas ou donzelões. O folclore da nossa antiga zona de engenho de cana e de fazendas de café quando se refere a rapaz donzelo é sempre em tom de debique: para levar o maricas ao ridículo. O que sempre se apreciou foi o menino que cedo estivesse metido com raparigas. Raparigueiro, como ainda hoje se diz. Femeeiro. Deflorador de mocinha. E que não tardasse em emprenhar negras, aumentando o rebanho e o capital paternos.
Se este foi sempro o ponto de vista da casa-grande, como responsabilizar-se a negra da senzala pela depravação precoce do menino nos tempos patriarcais? O que a negra da senzala fez foi facilitar a depravação com a sua docilidade de escrava; abrindo as pernas ao primeiro desejo do sinhô-moço. Desejo, não:ordem.(...)” P. 425
“(...) Ninguém nega que a negra ou a mulata tenha contribuído para a precoce depravação do menino branco da classe senhoril; mas não por si, nem como expressão de sua raça ou do seu meio-sangue: como parte de um sistema de economia e de família: o patriarcal brasileiro.” P.426
“(...) O mesmo interesse econômico dos senhores em aumentar o rebanho de escravos que corrompeu a família patriarcal no Brasil e em Portugal corrompeu-a no sul dos Estados Unidos.
(...) fomos os sadistas; o elemento ativo na corrupção da vida de família; e muleques e mulatas o elemento passivo. Na realidade, nem o branco nem o negro agiram por si, muito menos como raça, ou sob a ação preponderante do clima, nas relações do sexo e de classe que se desenvolveram entre senhores e escravos no Brasil. Exprimiu-se nessas relações o espírito do sistema econômico que nos dividiu,como um deus poderoso, em senhores e escravos.(...)” P. 430
Cap. V
O Escravo Negro na Vida Sexual e de Família do Brasileiro (continuação)
“Meninos-diabos eles só eram até os dez anos. Daí em diante tornavam-se rapazes. Seu trajo, o de homens feitos. Seus vícios, os de homens. Sua preocupação, sifilizarem-se o mais breve possível, adquirindo as cicatrizes gloriosas dos combates co Vênus que Spíx e Martius viram com espanto ostentadas pelos brasileiros.” P. 465
“Os pretos e pardos no Brasil não foram apenas companheiros dos meninos brancos nas aulas das casas-grandes e até nos colégios; houve também meninos brancos que aprenderam a ler com professores negros. (...)” P. 468
“Ociosa, mas alagada de preocupações sexuais, a vida do senhor de engenho tornou-se uma vida de rede. Rede parada, com o senhor descansando, dormindo, cochilando. Rede andando, com o senhor em viagem ou a passeio debaixo de tapetes ou cortinas. Rede rangendo, com o senhor copulando dentro dela. Da rede não precisava afastar-se o escravocrata para dar suas ordens aos negros; mandar escrever suas cartas pelo caixeiro ou pelo capelão; jogar gamão com algum parente ou compadre. De rede viajavam quase todo (...)” P482
“(...) E na cidade, com a falta de cemitérios durante os tempos coloniais, não era fácil aos senhores, mesmo caridosos e cristãos, darem aos cadáveres dos negros o mesmo destino piedoso que nos engenhos. Muitos negros foram enterrados na beira da praia: mas em sepulturas rasa, onde os cachorros quase sem esforço achavam o que roer e os urubus o que pinicar. (...) P. 491
“Grandes comezainas por ocasião das festas; mas nos dias comuns, alimentação deficiente, muito lorde falso passando até fome. Tal a situação de grande parte da aristocracia e principalmente da burguesia colonial brasileira e que se prolongou pelo tempo do Império e da República. O mesmo velho hábito dos avós portugueses, às vezes guenzos de fome, mas sempre de roupa de seda ou veludo, dois, três, oito escravos atrás, carregando-lhes escova, chapéu-de-sol e pente. (...)” P. 493
“O grande problema da colonização portuguesa do Brasil – o da gente – fez que ente nós se atenuassem escrúpulos contra irregularidades de moral ou conduta sexual. (...)” P. 495
“(...) na freqüência das uniões irregulares de homens abastados – (...) com negras e mulatas, devemos enxergar um dos motivos da rápida e fácil dispersão da riqueza nos tempos coloniais, com prejuízo, não há dúvida, para a organização da economia patriarcal e para o Estado capitalista, mas com decididas vantagens pra o desenvolvimento da sociedade brasileira em linhas democrática.” P. 499
“(...) Às vezes negrinhas de dez,doze anos já estavam na rua se oferecendo a marinheiros enormes, grangazás ruivos que desembarcavam dos veleiros ingleses e franceses, com uma fome doida de mulher. (...)
(...) Mas o grosso da prostituição, foram-no as negras, exploradas pelos brancos. (...)” P. 501
“(...) somos forçados a concluir, antes de nos regozijarmos com os elogios de Burton à pureza das senhoras brasileiras do tempo da escravidão, que muita dessa castidade e dessa pureza manteve-se à custa da prostituição da escrava negra; à custa da tão caluniada mulata; à custa da promiscuidade e da lassidão estimulada nas senzalas pelos próprios senhores brancos.” P. 502
“Um traço importante de infiltração de cultura negra na economia e na vida doméstica do brasileiro resta-nos acentuar: a culinária. O escravo africano dominou a cozinha colonial, enriquecendo-se de uma variedade de sabores novos. (...)” P. 504
“(...) Com a europeização da mesa é que o brasileiro tornou-se um abstêmio de vegetais; e ficou tendo vergonha de suas mais características sobremesas – (...). só se salvou o doce com queijo. É que a partir da Independência os livros franceses de receita de bom-tom começaram o seu trabalho de sapa da verdadeira cozinha brasileira; começou o prestígio das negras africanas de forno e fogão a sofrer consideravelmente da influência européia.” P. 510

2 comentários:

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

As citações não condizem com as páginas.